terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cores e Nomes


Foi com um certo deslumbramento que descobriu o nome das cores. Não o nome de verde claro e verde escuro, ou verde água... descobriu o nome do catálogo das tintas para parede! Tanta criatividade que dava vontade de ficar o dia todo na loja de tintas, folheando e entrando nesse mundo de delícias.

Só faltava querer comer cada uma, experimentar a sensação de estar em um cômodo daquela cor. Fechava os olhos e sonhava com o laranja tropical, o verde oxídrico, o roxo festa da uva. Tudo tão atraente, um mundo à parte de delícias.

Era melhor do que os nomes de esmalte de unha, que por si só já são um exemplo de rara inspiração. Mas são fugazes, aplicados em pequeno espaço, para uso imediato, sem grande interlocução com os sentidos e os sentimentos.

Mas pintar o ambiente sabendo o nome e saboreando a intenção, isso sim pode durar para sempre. E tanto frequentou as lojas de tinta, comprando amostras e pintando o próprio quarto, que a parede do pequeno cômodo virou uma obra de arte, o hobby uma obsessão.

Até que a presença que auxiliava os clientes indecisos e os inspirava a pintar até mais do que inicialmente pretendiam, foi devidamente notada e compensada. A loja ganhou um talento na decoração e aplicação prática dos sentimentos mais secretos. Ela ganhou  um campo aberto para explorar a sua vocação.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Adega

Ele queria tudo perfeito para a adega, profundidade e paz para as suas garrafas. O arquiteto estranhou que ele quisesse gavetas fechadas profundas e de nada adiantou argumentar.

Ele sabia que teria que cavar com cuidado, contratou uma pessoa para fazer cálculos precisos e sustentação correta para não abalar os alicerces da casa.

Pensou no isolamento, no tipo de pedra que queria, procurando e escolhendo até mesmo o sentido dos veios das pedras no momento da colocação, como um quebra cabeça prazeiroso a ser desenvolvido com cuidado e dedicação.

O engraçado é que ninguém o ouvia falar dos vinhos propriamente ditos, apenas do local, dos itens particulares que inventava de iluminação, da inclinação da escada, do tamanho exato das tais gavetas, que ele explicou serem mais práticas para organizar os tipos de vinho e aproveitarem o espaço.

Um cliente exigente demais, detalhista, cordial e que pagava bem, muito bem para uma simples adega! Nunca ele poderia imaginar que estava ajudando um serial killer a construir a sua catacumba particular.