sábado, 24 de agosto de 2013

Arquiteto

Uma situação corriqueira, uma sensação de vitória. Comprado o terreno, construída a primeira parte da casa, muda-se a família para, pouco a pouco, ir acabando a moradia própria. Comendo cimento e sonhando com a ausência de marteladas, vão vivendo quase acampados. O pai às voltas com ideias e materiais, fazendo e refazendo uma planta já tão rabiscada que apresenta vários furos. A mãe tentando resistir à histeria, ignorar a sujeira, lembrando com saudade da paz da antiga casa. Os filhos simplesmente passando por cima da confusão, trancando-se nos quartos ainda sem acabamento e ouvindo sua música como se nada acontecesse ao redor. E a avó? Incansavelmente tricota.
Maricota, quem diria, uma gata tão apegada à família, chegou a se mudar, toda dengosa. Mas não havia lugar onde se esconder, dormir mostrava-se impossível, seu pelo perdeu o brilho pelo pó. Andou arranhando alguns pedreiros, tentando não se abalar na altivez de gata de raça. Terminada a terceira etapa, a casa começando a ter cara de casa, resolveram fazer algumas modificações, mudar umas portas de lugar... a gata entrou em depressão, não aguentou a pressão e sumiu no mundo. Entre casa em obra e casa alguma, preferiu a segunda.
Cada pedreiro que entra mostra-se melhor que o anterior mas, pouco a pouco, o ritmo vai diminuindo, os erros aumentando, o desânimo se instalando. Até que ambas as partes, contratante e contratados, percebem-se em um beco sem saída, corrigindo ad æternum os erros dos anteriores, não vendo aparecer o fruto do árduo trabalho, gastando material e tempo, trabalho e dinheiro, rodando em círculos.
E se tivessem contratado um arquiteto? E se tivessem comprado algo pronto, mesmo que fosse um lugar menor? E se nunca tivessem se conhecido, ou se casado? Diagnóstico: crise matrimonial inadiável por motivo altamente explicável (obra sem acompanhamento adequado).
Atenuantes: Antidepressivo, acompanhamento de terapia, florais, homeopatia e em alguns casos houve resultados positivos com a acupuntura, prática de esportes e sexo selvagem, desde que fora do ambiente da obra.
Remédio: Antes tarde do que nunca, consulte um arquiteto.


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