quinta-feira, 2 de maio de 2013

Carros, Pessoas e Mobilidade


Entrei correndo no táxi e ele aparentava ser apenas um simpático senhor de idade, como a maioria dos taxistas dos pontos ao redor da minha casa. Falou do tempo e de amenidades, da vantagem de se morar em casa em uma cidade tão grande, e da sorte de eu ter tantas vagas para carro dentro de casa, embora vazias.

Poderia ter percebido nessas falas alguma dica do que viria a seguir mas não respondi, desinteressada pelo assunto. De repente, ele viu do outro lado da rua um motequeiro e foi o suficiente para a metamorfose, a transformação que o impeliu a vociferar a sua concepção de cidade, os seus preconceitos e os seus sonhos.

Falou dos motoqueiros como sendo os piores habitantes da cidade, culpados de tudo de errado que acontece no trânsito, citando exemplos nos quais ele ameaçava e assustava alguns que teriam feito algo contra ele no carro. Sem me dar tempo para responder, passou a culpar os ciclistas, mostrando um jornal que colocava diante dos meus olhos no banco traseiro enquanto tentava dirigir.

Quando consegui entender do que se tratava, tentei argumentar que a notícia trazia ciclistas que haviam sido atropleados na ciclovia, onde de fato os errados seriam os carros ali circulando. Não se abatendo, passou a falar mais alto, culpando as ciclovias como criações do prefeito gay, que tentava impor uma moda impossível para uma cidade como São Paulo.

A essa altura ainda tentei entender o argumento, falando que seria algo interessante justamente por trazer uma segurança a pessoas que queriam pedalar. Foi aí que cometi a besteira de me impor contra a sua raiva, a sua crença mais do que enraizada: as pessoas de São Paulo não podem ficar por aí perdendo tempo e se divertindo, elas precisam trabalhar para sustentar todo o resto de estados vagabundos do Brazil! Essa era a conclusão dele, a sua visão de mundo.

Não tinha mais volta, ele estava completamente fora de si. Gritava, balançava os braços, seus olhos olhando ao redor, parecendo a procura do próximo alvo de tamanha raiva. Para ele, só os carros deveriam circular, os motoristas sendo os únicos com direito a circular pela cidade, quando então o trânsito fluiria livremente, livre das motos e das bicicletas. Os pedestres, na sua opinião, também atrapalhavam pois atravessavam fora da faixa, distraiam os motoristas.

E ele falava sem parar, sem dar tempo para eu pensar, responder, fazer qualquer coisa. Percebi que ele estava pegando o caminho errado, tentei corrigir, explicando que queria que ele fizesse um retorno pois queria ficar do outro lado da avenida movimentada, difícil de atravessar.

Foi a gota d´água: disse que eu que atravessasse, passou alguns quarteirões de onde eu queria ir, parou abruptamente, exigiu o pagamento, me jogou o troco na cara e, antes de partir cantando pneu, nem ouviu o meu argumento de que ele era uma parte grande do problema, ameaçando, assustando, deixando pedestres onde não podiam atravessar, acreditando que na sua cidade não poderia haver diferentes convivendo em um mesmo espaço.