segunda-feira, 22 de abril de 2013

Cliente Criativa

Ela era uma excelente cliente, de fato. Tinha um apartamento do tempo em que existia o conceito de quarto de empregada "reversível" em um apartamente de dois quartos. Pois é, pessoas pensavam ser parte indiscutível da rotina.

Já na primeira vez que foi chamado, o arquiteto não só  notou o cômodo em total desuso, como lembrou que algumas pessoas, já tão distantes da época na qual o edifício fora construído, não entendiam se o "reversível"  se aplicava ao quarto ou à empregada e, por questões de distanciamento crítico, criaram outros usos para o mesmo.

Alguns o transformaram em escritório, outros aumentaram a cozinha, e assim por diante. A cliente em particular estava encantada com a novidade do closet, algo que lhe parecia uma excelente ideia, apesar do quarto já estar repletos de armários e ela morar sozinha.

Enfim, ela era a cliente e o arquiteto fez um projeto que captou todo o sonho da cliente. Foi uma realização impressionante, algo que ela fotografou e usou durante alguns anos, até que viu um filme onde aparecia um quarto do pânico. Sem dúvida isso era uma necessidade muito mais importante do que o closet!

Chamou o arquiteto, explicou-lhe o novo projeto, relatou-lhe todos os perigos aos quais uma pessoa que mora sozinha está sujeita e encomendou algo simples mas com toda a tecnologia disponível na época, o que se resumia a um alarme protegido, gerador de energia próprio, filtro de água e de ar e uma série de itens que iam de lugar para dormir a comidas desidratadas.

Intrigado pelo desafio do pedido, ele pesquisou várias referências, desaconselhou a cliente a tirar porte de arma, já que o prédio era bastante seguro e contava com um controle de acesso bastante eficiente. Além disso, para total espanto de alguns moradores de outras cidades, já nessa época em São Paulo os entregadores de pizza não subiam no apartamento por medida de segurança. Ela usou e abusou do quarto do pânico, curou ressacas, realizou sexo seguro no quarto mais seguro ainda e depois cansou da novidade.

Chamou mais uma vez o arquiteto e declarou que precisava de uma varanda com uma bela vista para o mar... como assim? Essa foi a excalmação do arquiteto, que trouxe a definição de varanda como sendo algo externo à construção, tentou de tudo para convencer a cliente a partir para outra alternativa, argumentou que paredes cobertas por fotografias panorâmicas não eram uma vista bonita.
Por fim, cansado de discutir, desistiu da cliente, depois de um relacionamento de alguns anos. Nem sempre, um bom negócio para o bolso, é um bom negócio para o coração, ou para a reputação!


2 comentários:

  1. Q bom q vc está de volta. Gosto mto desses contos, sempre interessantes, com um humor mto sutil. É difícil a arte do conto - a "short story".

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  2. Obrigada! Difícil é a arte de escrever qualquer coisa no dia a dia corrido e tão curto, como acabam sendo também os textos, não só por falta de tempo mas por opção própria de forma de expressão.

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