terça-feira, 23 de abril de 2013

Claraboia

Queria uma claraboia de filme, daquela típica de filme de ação, que é invariavelmente quebrada em uma cena de movimento rápido. Sempre sonhara em olhar para o alto e ver o céu azul, a chuva caindo sem molhar, as estrelas no fundo escuro da noite. Como em todos os desejos, que só manifestam o melhor dos momentos, nunca pensava em ver dias nublados.
Em conversa com amigos, contou o sonho que ele iria realizar, disposto que estava a iniciar uma pequena obra para incluir a tal da claraboia mágica, que abriria todo um mar de possibilidades sensoriais...
Clarabela?” Perguntou o amigo, “Não é a namorada do Pateta?”
Pateta é você, pensou indignado, notando que realmente as leis da amizade deixam de levar em conta determinadas características desagradáveis em favor do bom relacionamento.
Conhece um bom profissional para fazer o trabalho?, perguntou uma amiga que sempre gostava de incluir detalhes de complicação, “Provavelmente vai ser uma adaptação um pouco complicada já que o seu telhado não foi projetado pensando nesse uso.”
Mão de obra especializada, nem pensar!”, respondeu alarmado, “É questão que já combinei com aquele pedreiro que fez o serviço do banheiro no ano passado.”
E também hoje devem existir alguns kits pré-montados como aqueles de forno a lenha e churrasqueira, completou em pensamento, feliz com a simplificação dos tempos das grandes lojas de “faça você mesmo”.
Vale lembrar que ele não era mesmo um homem do estilo “eu mesmo vou fazer”, nunca tendo achado que instalar um chuveiro ou pendurar quadros fosse uma coisa que não pudesse ser passada para o porteiro do prédio em um trabalho extra.
E como morava no último andar do prédio, achou que seria como um toque de mestre ter uma claraboia na sua cobertura. Dessa forma, ficou tranquilo com o acordo, aguardando ansioso o dia que o pedreiro iria começar o trabalho.
Foi aí que começou a perceber que a vida estava falando com ele sobre o seu sonho: todos os filmes de ação tinha cenas com telhados de vidro quebrando, pessoas caindo por entre o vidro despedaçado, cenas e mais cenas temáticas do que passara a ser o seu maior sonho.
Até que o dia chegou e a obra começou, abrindo espaço para a claraboia, com os amigos já perguntando quando seria a festa de inauguração. Realmente parecia ter se transcorrido toda uma eternidade mas de fato tinham passado só algumas semanas entre a ideia e o inicio da sua execução.
O pedreiro ficava um pouco desconfiado, dizendo que nunca tinha feito algo assim e que não sabia se podia ir cortando a lage daquela maneira. Ele argumentando que era algo banal, que nem seria tão grande e pelo que tinha lido o cuidado maior seria na vedação para não passar água em dias de chuva.
Até que foi rápida a parte de quebra quebra, com poucas perguntas porque ele mesmo era o síndico. Como era inverno e época de poucas chuvas, não precisou tomar muito cuidado com isso mas de qualquer maneira tirou os móveis da sala para que não sujassem na obra.
No dia de instalar o vidro, quis estar em casa e deu uma desculpa no trabalho para sair mais cedo. Era como ver se realizar um sonho! Chegou em casa bem a tempo de abrir a porta, ouvir um grito, um barulho alto e se virar bem a tempo de ver o pedreiro ainda no ar, numa simulação pavorosamente real dos seus tão queridos filmes de ação. Os cacos de vidro se espalharam à sua volta...


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