sábado, 27 de abril de 2013

Casa Aquática


Quando comprou a casa, o espaço já estava lá, construído, pronto para ser preenchido. Não pensou duas vezes: encheu de água e saiu para comprar os peixes.

É claro que tudo o mais também demandava a sua atenção, pintura, moveis, portão automático e toda a sorte de detalhes de uma casa nova, que vão compondo o ambiente, traduzindo personalidades.

E enquanto a casa ganhava a cara dos donos, os peixes iam sofrendo as suas adaptações. Foi quando ela descobriu que precisava combinar os peixes pois suas necessidades são diversas, em relação a PH e temperatura da água, por exemplo. 

E quem não entendia de nada disso, foi sofrendo os percalços e, os poucos, foi aprendendo. Os peixes que não podiam conviver juntos foram separados e ela montou outros aquários dentro de casa, para abrigar separadamente esses grupos heterogêneos. Depois veio a necessidade de montar um aquário maternidade e outro hospital, por razões óbvias e auto-explicativas.

Mas era grande o prazer de contemplar e acompanhar a vida desses seres nadadores, seus movimentos, suas cores, essa decoração viva que trazia uma paz enorme ao ambiente. 

A casa aos poucos foi se voltando para os seres com nadadeiras, as visitas se impressionando com a força que emanava dos aquários que iam aumentando a cada dia.

As crianças sabiam de cor todos os nomes, todos os gostos dos peixes, os pais contrataram uma firma de manutençao para dar conta da limpeza e cuidado mais especializado com os aquários.

Nada mais era comprado para a casa, tudo para os peixes, e mais peixes, tão belos nas suas composições, tão harmoniosos, e combinando com todos os estilos, tão ecléticos!  Mas não tinham ainda um aquário de água salgada... e correram a providenciar.

O tempo passava com o aumento da demanda por cuidados, por estudos, por mais aquários e peixes, mais cuidados e prazeres, mais belezas incontáveis, inimagináveis danças submarinas, os aquários invadindo os quartos, a cozinha, os banheiros. A cada movimento pela casa, um movimento oposto aquático se sobrepunha.

E era tanta a devoção, tamanha a confraternização pacífica, que um dia o cuidador de aquários encontrou uma carta informando que a família tinha decidido fazer parte da vida aquática e habitar os aquários

Até hoje, os amigos e a família tentam decifrar o enigma. Quais dos peixes são os os ex-humanos? Mas o que importa é que os depósitos chegam na firma de manutenção e a casa foi aberta para visitação, interessando mais pessoas da região a ter aquários em casa. Sem dúvida, um belo item de decoração!

terça-feira, 23 de abril de 2013

Claraboia

Queria uma claraboia de filme, daquela típica de filme de ação, que é invariavelmente quebrada em uma cena de movimento rápido. Sempre sonhara em olhar para o alto e ver o céu azul, a chuva caindo sem molhar, as estrelas no fundo escuro da noite. Como em todos os desejos, que só manifestam o melhor dos momentos, nunca pensava em ver dias nublados.
Em conversa com amigos, contou o sonho que ele iria realizar, disposto que estava a iniciar uma pequena obra para incluir a tal da claraboia mágica, que abriria todo um mar de possibilidades sensoriais...
Clarabela?” Perguntou o amigo, “Não é a namorada do Pateta?”
Pateta é você, pensou indignado, notando que realmente as leis da amizade deixam de levar em conta determinadas características desagradáveis em favor do bom relacionamento.
Conhece um bom profissional para fazer o trabalho?, perguntou uma amiga que sempre gostava de incluir detalhes de complicação, “Provavelmente vai ser uma adaptação um pouco complicada já que o seu telhado não foi projetado pensando nesse uso.”
Mão de obra especializada, nem pensar!”, respondeu alarmado, “É questão que já combinei com aquele pedreiro que fez o serviço do banheiro no ano passado.”
E também hoje devem existir alguns kits pré-montados como aqueles de forno a lenha e churrasqueira, completou em pensamento, feliz com a simplificação dos tempos das grandes lojas de “faça você mesmo”.
Vale lembrar que ele não era mesmo um homem do estilo “eu mesmo vou fazer”, nunca tendo achado que instalar um chuveiro ou pendurar quadros fosse uma coisa que não pudesse ser passada para o porteiro do prédio em um trabalho extra.
E como morava no último andar do prédio, achou que seria como um toque de mestre ter uma claraboia na sua cobertura. Dessa forma, ficou tranquilo com o acordo, aguardando ansioso o dia que o pedreiro iria começar o trabalho.
Foi aí que começou a perceber que a vida estava falando com ele sobre o seu sonho: todos os filmes de ação tinha cenas com telhados de vidro quebrando, pessoas caindo por entre o vidro despedaçado, cenas e mais cenas temáticas do que passara a ser o seu maior sonho.
Até que o dia chegou e a obra começou, abrindo espaço para a claraboia, com os amigos já perguntando quando seria a festa de inauguração. Realmente parecia ter se transcorrido toda uma eternidade mas de fato tinham passado só algumas semanas entre a ideia e o inicio da sua execução.
O pedreiro ficava um pouco desconfiado, dizendo que nunca tinha feito algo assim e que não sabia se podia ir cortando a lage daquela maneira. Ele argumentando que era algo banal, que nem seria tão grande e pelo que tinha lido o cuidado maior seria na vedação para não passar água em dias de chuva.
Até que foi rápida a parte de quebra quebra, com poucas perguntas porque ele mesmo era o síndico. Como era inverno e época de poucas chuvas, não precisou tomar muito cuidado com isso mas de qualquer maneira tirou os móveis da sala para que não sujassem na obra.
No dia de instalar o vidro, quis estar em casa e deu uma desculpa no trabalho para sair mais cedo. Era como ver se realizar um sonho! Chegou em casa bem a tempo de abrir a porta, ouvir um grito, um barulho alto e se virar bem a tempo de ver o pedreiro ainda no ar, numa simulação pavorosamente real dos seus tão queridos filmes de ação. Os cacos de vidro se espalharam à sua volta...


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Cliente Criativa

Ela era uma excelente cliente, de fato. Tinha um apartamento do tempo em que existia o conceito de quarto de empregada "reversível" em um apartamente de dois quartos. Pois é, pessoas pensavam ser parte indiscutível da rotina.

Já na primeira vez que foi chamado, o arquiteto não só  notou o cômodo em total desuso, como lembrou que algumas pessoas, já tão distantes da época na qual o edifício fora construído, não entendiam se o "reversível"  se aplicava ao quarto ou à empregada e, por questões de distanciamento crítico, criaram outros usos para o mesmo.

Alguns o transformaram em escritório, outros aumentaram a cozinha, e assim por diante. A cliente em particular estava encantada com a novidade do closet, algo que lhe parecia uma excelente ideia, apesar do quarto já estar repletos de armários e ela morar sozinha.

Enfim, ela era a cliente e o arquiteto fez um projeto que captou todo o sonho da cliente. Foi uma realização impressionante, algo que ela fotografou e usou durante alguns anos, até que viu um filme onde aparecia um quarto do pânico. Sem dúvida isso era uma necessidade muito mais importante do que o closet!

Chamou o arquiteto, explicou-lhe o novo projeto, relatou-lhe todos os perigos aos quais uma pessoa que mora sozinha está sujeita e encomendou algo simples mas com toda a tecnologia disponível na época, o que se resumia a um alarme protegido, gerador de energia próprio, filtro de água e de ar e uma série de itens que iam de lugar para dormir a comidas desidratadas.

Intrigado pelo desafio do pedido, ele pesquisou várias referências, desaconselhou a cliente a tirar porte de arma, já que o prédio era bastante seguro e contava com um controle de acesso bastante eficiente. Além disso, para total espanto de alguns moradores de outras cidades, já nessa época em São Paulo os entregadores de pizza não subiam no apartamento por medida de segurança. Ela usou e abusou do quarto do pânico, curou ressacas, realizou sexo seguro no quarto mais seguro ainda e depois cansou da novidade.

Chamou mais uma vez o arquiteto e declarou que precisava de uma varanda com uma bela vista para o mar... como assim? Essa foi a excalmação do arquiteto, que trouxe a definição de varanda como sendo algo externo à construção, tentou de tudo para convencer a cliente a partir para outra alternativa, argumentou que paredes cobertas por fotografias panorâmicas não eram uma vista bonita.
Por fim, cansado de discutir, desistiu da cliente, depois de um relacionamento de alguns anos. Nem sempre, um bom negócio para o bolso, é um bom negócio para o coração, ou para a reputação!