quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Copa do Mundo

Decorou a casa para a copa do mundo. Começou pensando no lugar comum: bandeiras, panos, cores... o verde, amarelo, azul e branco cobriram sofás, camas, almofadas. O mergulhar literal nas cores da bandeira quando ia para a cama, quando sentava no sofá e, já ensaiando a emoção, assistia qualquer jogo que estivesse passando, vestindo ele também as cores da sorte.
Dos panos às tintas foi um passo: as paredes brancas destacavam as cores mas poderiam fazer mais do que isso... uma bandeira brasileira imensa foi pintada na parede da sala, batentes multicoloridos passaram a fazer parte do panorama, mudando de cor a cada trecho, guiando o torcedor, interligando ambientes na torcida de algo que ainda não começara a aparecer nem nos comerciais.
Realmente não se pode dizer que ele não tenha planejado cada passo, começou o processo com bastante antecedência. Mesmo não tendo um plano geral ou uma noção exata do objetivo a alcançar, foi implementando cada etapa metodicamente, planejando começo, meio e fim. Depois ficava satisfeito por um tempo, achando que chegara ao que queria.
Aos poucos, recomeçava a olhar em volta, ficar inquieto e sentir que “faltava alguma coisa”, que a sua obra não estava à altura da ocasião, que poderia iniciar uma nova etapa. Era o momento de planejar, procurar, percorrer lojas e revistas, discutir as ideias...
Alguns móveis foram assumindo formas arredondadas, verdadeiros elogios à bola no gramado. Aliás, o tapete da sala há algum tempo já fora substituído por um dessa cor e tudo ia se distribuindo.
Como hobbie, percorria as lojas de material de construção a procura de outros itens que chamassem a sua atenção para o tema, integrando novas soluções a algo que aos olhos da maioria já estava completo, até porque o apartamento era confortável e espaçoso mas não que fosse possível realizar eternamente esse exercício.
Além disso, tinha a questão do tempo! Quando não é o dinheiro, a criatividade ou material, o fator crítico é o tempo. E nesse caso era um fator realmente imperativo, uma vez que não era possível adiar a copa do mundo por causa de uma obra em um apartamento de um brasileiro apaixonado, obcecado.
Ele tinha certeza de que o Brasil seria campeão se a sua decoração fosse arrebatadora. Associava o seu esforço ao esforço dos jogadores, em uma proporção direta que poucos conseguiam entender. O melhor era falar como brincadeira e acompanhar cada etapa dos treinos enquanto acompanhava cada avanço do seu APCM (uma sigla íntima para designar apartamento da copa do mundo).
Dois dias antes de começar a copa, ele contratou uma faxineira extra, convidou a todos os amigos e familiares, comprou os últimos itens de comes e bebes, os apitos e apetrechos.
Quando as pessoas chegaram, a admiração estava em cada rosto, em cada detalhe que um ou outro descobriam e compartilhavam com os demais, E ele, sentado na sua poltrona de bola de futebol, sentia uma realização tão profunda que seria difícil prestar atenção ao jogo.