sábado, 3 de novembro de 2012

Telhado

Malditos demônios passeiam perdidos, vorazes, por sobre a minha cabeça. Nenhum barulho, nenhuma razão para desconfiar da sua presença... mas hoje sei que lá estão, ocultos no escuro e úmido espaço entre o forro e o telhado. Hibernam no inverno, vivem sua sofreguidão no verão, roubam a paz dos que acreditaram estar a salvo do seu poder destruidor. Arrasam, aniquilam, milímetro por milímetro, povoando meus pesadelos. Quem pode dormir sossegado sabendo-os tão perto, tão devastadores?
E o que dizer da falta de aviso, da surpresa mais autêntica de descobrir infestando-os a tal ponto que nenhum remédio ou benção pode destruí-los! A força da imaginação então preenche lacunas, amplifica o medo, e posso ouvi-los, agora sim, como um batalhão de famintos, transpondo impossíveis barreiras para chegar ao que interessa... suaves madeiras. E todas as qualidades são provadas, neste banquete sem igual, onde demonstram sua perícia de gourmet, recusando a amarga peroba e fartando-se de tudo o mais.
Em meio à devastação, passeiam técnicos e curiosos, tecendo suposições e teorias. Os moradores de apartamentos apontam as casas antigas como principal foco da contaminação da cidade. Os apreciadores de casas sabem, sem sombra de dúvida, que o entulho enterrado durante a construção dos prédios é um ninho perfeito. Muitos acusam as árvores de serem as principais vilãs. Os defensores do meio ambiente condenam a derrubada indiscriminada de árvores e a falta de equilíbrio ecológico. E por aí vai...
Na hora do aperto, apela-se para soluções antigas e modernas, descobre-se a fragilidade do homem e suas construções diante de um minúsculo inseto (ou seria um verme?). Deixando a biologia não estudada, entra-se no âmbito jurídico, na falta de cobertura do seguro, na ineficácia do combate das autoridades, na vistoria técnica que nada detectou... e aí você já dançou! Eles, os cupins, já comeram até se fartar e só resta ver o que dá para salvar. E o pior é que a paranoia fica para sempre: o medo de voltar a ser vítima desses malditos.
Para deter a demolição, retira-se o que está condenado, de estuque a caibros do telhado, examina-se armário, batente e rodapé, portas, janelas e o que mais der. Pensa em matá-los? Mais fácil intoxicar todos os outros moradores da casa do que conseguir eliminá-los. A palavra usada passa a ser controle, prevenção, nada mais do que a impossibilidade de total aniquilação. Então, convive-se com eles, vigiando seus avanços, retardando suas investidas, numa batalha de estratégia e lógica, digna de seres racionais. Chega-se a pensar que cupim pensa.. logo existe. Sim, existem aos montes... e muitos bem próximos, compartilhando a mesma residência!
Mas antes eles não estavam exatamente ali e ninguém ligava? Mas agora é diferente: foi vislumbrado todo o seu poder. Depois do primeiro contato, não há salvação. Percebe-se que beira a questão religiosa, abala ou reforça a fé, aproxima-nos da criação... somos todos filhos de Deus. Incômodo parentesco, desconfortável presença, onipresente ameaça... e dizem que eles, os cupins, proliferam pelo mundo! Assumida a dimensão global, não há vontade racional que segure o pânico. Socorro!

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