quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Explosão Criativa

Sabe aquelas atitudes totalmente desnecessárias, absolutamente inúteis, que você sabe não levar a lugar algum? Como as discussões que você começa sabendo, de antemão, que não podem resultar em nada de frutífero! Isso quando você, no fundo, também sabe que não existe nenhuma possibilidade de sequer manter sua posição por muito tempo... Esse ímpeto de tempestade, irracional e incontrolável, acomete muitas pessoas, nas mais variadas situações. O quê? Você nunca teve um ímpeto desses? Bem, então talvez esse estado de espírito seja peculiar de algumas pessoas específicas, entre elas, eu.

 Momento angustiante da proximidade da explosão, controle mantido ainda a duras penas, vem aquela frase de efeito devastador: Não precisa ficar tão nervosa. É aí que a coisa explode! Para não percorrer essa trilha, alguns recomendam terapia, outros lutas marciais e existem os que optem pela ioga. Pode-se enumerar ainda o uso de florais, aulas de artesanato, sair para andar ou apelar para calmantes. Eu, pessoalmente, recomendo um serviço doméstico... Não estou aqui prescrevendo lavar pratos, esfregar roupas ou mesmo cozinhar, penso em uma coisa mais criativa e radical: arrumar a casa. Mas arrumar no sentido mais literal, brutal, uma mudança no astral, uma reciclagem de móveis, pintura das paredes ou até mesmo uma pequena reforma.

Sim, canalizar toda a energia explosiva para algo criativo, útil e com grande potencial realizador. No final, além de poupar uma briga desgastante, você ainda vê o resultado positivo no seu lar ou no seu local de trabalho. O processo requer um certo treino mas não é tão difícil! Quando você sente o sangue subir, não perca a cabeça. Olhe em volta, respire fundo e descubra algo que você “precisa” mudar ao seu redor. É claro que um certo preparo anterior facilita muito o andamento da terapia: ler revistas de arquitetura e decoração, fazer cursos de técnicas diversas, acompanhar os lançamentos, visitar lojas e outras atividades correlatas. O melhor é que o campo é tão vasto que não há possibilidade de esgotamento! Só para enumerar algumas áreas, temos todo o campo dos acabamentos (pinturas, louças, pisos), da decoração (móveis, acessórios, cortinas, tecidos, quadros), dos detalhes (iluminação, paisagismo) e isto sem falar da arquitetura de interiores, com todas as possibilidades de mudança dos usos e distribuição dos espaços (facilitada pelo uso de paredes de gesso, estantes).

Entretanto, não posso dizer que seja uma saída fácil, livre de acidentes. Mas o nível de risco é bem mais controlável do que, por exemplo, o da briga decorrente da explosão. Dependendo do caso, uma discussão pode desde abalar relacionamentos até acabar com casamentos, empregos, amizades. No caso de intervenções criativas, por outro lado, é possível envolver-se de maneira mais contida e menos arriscada, como na troca do lugar dos móveis. Com o campo inesgotável de ideias, os recursos financeiros necessários podem ser negociados ou parcelados, facilitando o acesso ao processo criativo gerado a partir de um impasse emocional, contido a tempo de desviar a energia acumulada para algo aproveitável. O único ponto obscuro a ser quantificado seria o risco do remédio vir a se tornar mania, da mudança passar a compor um padrão, da reforma virar obsessão. Mas, como saber senão experimentando...

sábado, 3 de novembro de 2012

Telhado

Malditos demônios passeiam perdidos, vorazes, por sobre a minha cabeça. Nenhum barulho, nenhuma razão para desconfiar da sua presença... mas hoje sei que lá estão, ocultos no escuro e úmido espaço entre o forro e o telhado. Hibernam no inverno, vivem sua sofreguidão no verão, roubam a paz dos que acreditaram estar a salvo do seu poder destruidor. Arrasam, aniquilam, milímetro por milímetro, povoando meus pesadelos. Quem pode dormir sossegado sabendo-os tão perto, tão devastadores?
E o que dizer da falta de aviso, da surpresa mais autêntica de descobrir infestando-os a tal ponto que nenhum remédio ou benção pode destruí-los! A força da imaginação então preenche lacunas, amplifica o medo, e posso ouvi-los, agora sim, como um batalhão de famintos, transpondo impossíveis barreiras para chegar ao que interessa... suaves madeiras. E todas as qualidades são provadas, neste banquete sem igual, onde demonstram sua perícia de gourmet, recusando a amarga peroba e fartando-se de tudo o mais.
Em meio à devastação, passeiam técnicos e curiosos, tecendo suposições e teorias. Os moradores de apartamentos apontam as casas antigas como principal foco da contaminação da cidade. Os apreciadores de casas sabem, sem sombra de dúvida, que o entulho enterrado durante a construção dos prédios é um ninho perfeito. Muitos acusam as árvores de serem as principais vilãs. Os defensores do meio ambiente condenam a derrubada indiscriminada de árvores e a falta de equilíbrio ecológico. E por aí vai...
Na hora do aperto, apela-se para soluções antigas e modernas, descobre-se a fragilidade do homem e suas construções diante de um minúsculo inseto (ou seria um verme?). Deixando a biologia não estudada, entra-se no âmbito jurídico, na falta de cobertura do seguro, na ineficácia do combate das autoridades, na vistoria técnica que nada detectou... e aí você já dançou! Eles, os cupins, já comeram até se fartar e só resta ver o que dá para salvar. E o pior é que a paranoia fica para sempre: o medo de voltar a ser vítima desses malditos.
Para deter a demolição, retira-se o que está condenado, de estuque a caibros do telhado, examina-se armário, batente e rodapé, portas, janelas e o que mais der. Pensa em matá-los? Mais fácil intoxicar todos os outros moradores da casa do que conseguir eliminá-los. A palavra usada passa a ser controle, prevenção, nada mais do que a impossibilidade de total aniquilação. Então, convive-se com eles, vigiando seus avanços, retardando suas investidas, numa batalha de estratégia e lógica, digna de seres racionais. Chega-se a pensar que cupim pensa.. logo existe. Sim, existem aos montes... e muitos bem próximos, compartilhando a mesma residência!
Mas antes eles não estavam exatamente ali e ninguém ligava? Mas agora é diferente: foi vislumbrado todo o seu poder. Depois do primeiro contato, não há salvação. Percebe-se que beira a questão religiosa, abala ou reforça a fé, aproxima-nos da criação... somos todos filhos de Deus. Incômodo parentesco, desconfortável presença, onipresente ameaça... e dizem que eles, os cupins, proliferam pelo mundo! Assumida a dimensão global, não há vontade racional que segure o pânico. Socorro!