sábado, 6 de outubro de 2012

Telefone Hiperativo

No início, era um telefone como qualquer outro. Funcionava a contento, quebrava ocasionalmente e, basicamente, servia bem aos seus donos. E apesar de ser chamado simplesmente “o telefone”, é óbvio que podia ser subdividido em linha telefônica e aparelho, embora na época da instalação fossem duas coisas praticamente inseparáveis. Tanto, que o aparelho vinha junto, sendo de propriedade da operadora que, gentilmente, alugava o mesmo para que as pessoas pudessem, de fato, usar a linha. Por isso, até hoje algumas pessoas não conseguem entender o conceito, cuidando zelosamente de aparelhos ultrapassados por medo de perder “o telefone”, o que significaria, em muitos casos, perder o contato com o mundo exterior.

E naquela época nem todos tinham telefone, o que significava ser o centro da vizinhança, com a oferta de um meio de fazer chamadas sempre muito curtas, apenas para informar fatos urgentes como doença, nascimentos e outros. E o telefone, bem como os donos da casa, era sempre muito solícito, raramente dando defeito nessas ligações, o que também era um fato comum com as linhas que já então povoavam de fio os postes e a vida das pessoas.
Bem, depois passou por mudanças, viu ser acrescido de extensões, passando posteriormente por mudança de prefixo. E como fora instalado em um apartamento espaçoso e próprio, nunca passou por mudança de endereço. Até que um dia, toda a central a qual pertencia, seguindo os fios dos postes que parecem nunca ter fim, foi amplamente remodelada, atualizada. Mudanças de máquinas e, mais uma vez, de prefixo, testes e mais testes. Neste período, ocorreram problemas previsíveis e contornáveis, compartilhados por outros telefones da vizinhança. Foi quando, finalmente, o aparelho verde bandeira foi devolvido à companhia por absoluta incompatibilidade com a modernidade.
Foi aí que as coisas começaram a mudar. No início, algumas ligações não foram completadas, o que motivou a chamada do técnico, que diagnosticou problema interno, que fez com que o dono da casa chamasse o zelador. O zelador, um quebra-galho de competência inquestionável, investigou o problema e descobriu que as únicas ligações não completadas eram dirigidas ao namorado da filha do dono da casa! Mas, como ele era mesmo claramente um cafajeste (palavras da mãe da moça), o defeito foi relevado, o namoro acabou e tudo ficou calmo por uns tempos.
Os fatos estranhos recomeçaram durante a copa do mundo, quando acabou a luz e todos, desesperados, tentavam achar um lugar para ver o jogo do Brasil, que começaria dali a minutos. Correram ao telefone, ligaram para vários amigos e parentes e sempre dava ocupado ou ninguém atendia. Na hora do jogo, o filho mais velho, quase chorando, pegou o fone e ouviu, estupefacto, o hino do Brasil! Ouviram o primeiro tempo pelo telefone e aprenderam que, apesar da praticidade da eletricidade, é sempre bom ter um rádio de pilha de reserva. No dia, acharam engraçada a coincidência mas não deram atenção maior ao fato.
Só que as ocorrências passaram a ser mais explícitas, levando os mais crédulos a acreditar que, de fato, o telefone estava interagindo com os donos da casa. Em dias de previsão de fortes chuvas, ouvia-se a previsão no telefone. Todos os aniversariantes eram saudados com uma gravação de Parabéns a Você no dia certo. O telefone tocava quando o despertador falhava, mesmo não tendo sido programado. Personas não-gratas tinham suas ligações simplesmente cortadas pelo meio da conversa, quando conseguiam ligar... E por aí vai: o telefone avisou sobre um vazamento de gás, ligou para a polícia na ocasião de um assalto ao prédio, começou a dar receitas para variar o cardápio, oferecer sugestões para boas aplicações na bolsa, dar a temperatura, sugerir combinações de roupa...


Nenhum comentário:

Postar um comentário