domingo, 7 de outubro de 2012

Labirinto

A saída é achar o telefone e pedir ajuda à polícia.”, gritou uma voz de mulher vinda de um dos quartos. “Mas onde fica o telefone? ”, perguntou um homem perdido entre um banheiro com três portas e o que parecia ser um closet ainda sem prateleiras (ou seria um outro banheiro sem as louças sanitárias?). Em algum ponto da casa, latia um cachorro histérico, já ligeiramente rouco.
Os homens da mudança, por sua vez, tentavam decidir onde colocar a mobília sem a indicação dos donos da casa, que tinham se perdido pelos meandros da construção. Amedrontados, tratavam de permanecer o mais próximo possível da porta de entrada, amontoando caixas e empilhando cadeiras para ganhar espaço. Economizar espaço? Em uma casa de quinhentos metros quadrados? Mas eles não queriam se arriscar...
Um dos funcionários da empresa de mudança precisava desesperadamente ir ao banheiro e ousou abrir algumas portas, sem perder de vista os colegas. Encontrou a cozinha, um cômodo com prateleiras até o teto (provavelmente um escritório) e uma outra sala, com uma grande porta de vidro dando para o jardim. Os três ambientes tinham pelo menos duas outras portas, que podiam ser avistadas mas estavam totalmente fechadas, sem deixar sequer entrever o seu interior. Para piorar as coisas, as dobradiças eram do tipo vai-e-volta, não permitindo aventurar-se e manter o contato visual ao mesmo tempo.
Mas, como as necessidades da natureza não têm lá muita paciência, o homem acabou pedindo a um outro que mantivesse a porta da sala grande aberta enquanto ele tentava achar o que procurava. Mesmo com má vontade, porque atrasava o serviço e os móveis eram muitos, o outro aceitou o encargo. A primeira porta foi aberta mas mostrou apenas mais um lote de portas, distribuídas em um corredor largo e bem iluminado, com a luz do sol entrando através de uma clarabóia. Andando no sentido horário, o funcionário respirou fundo e girou a maçaneta da segunda porta. Dentro, encontrou uma mulher dormindo, que se identificou como a faxineira, chorou de emoção por ser resgatada e contou que estava tentando sair da casa desde o dia anterior. Os dois homens se entreolharam, indicaram a saída que estava exatamente a duas portas da infeliz, e tentaram a terceira porta que, finalmente, abriu-se para o paraíso, quer dizer, o banheiro.
A esta altura, o dono da casa tinha conseguido achar um telefone mas ficou na dúvida do número para onde deveria discar. Chamar a polícia parecia um pouco melodramático. O corpo de bombeiros soava mais simpático mas excessivamente barulhento. Foi quando o seu olhar se iluminou: tinha que chamar o arquiteto! Começou por ligar para o próprio escritório, onde a secretária deu-lhe o número desejado mas, como não tinha onde anotar, pediu que ela fizesse o contato e explicasse a situação. Tudo se resolveria com uma planta da casa, pensou aliviado. Foi quando percebeu que não havia desligado o telefone, tal o estado de nervosismo. Do aparelho, saía a voz da secretária que, atônita, fazia a pergunta que ele mais detestaria ouvir no momento: “Como? O senhor está perdido na sua própria casa?”

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