sábado, 27 de outubro de 2012

Implosão

Enquanto tudo desmorona ao meu redor, olho fotos antigas na expectativa de encontrar algum sentido em tudo isto. Pessoas sozinhas e agrupamentos, paisagens que certamente já mudaram, fragmentos dentro de uma caixa velha de sapatos. Ignoro o presente enquanto emociono-me com o passado até descobrir que as fotos não são minhas. Como são semelhantes as lembranças de todos! Pessoas sozinhas e agrupamentos, paisagens que não existem mais... quantas horas passei com lembranças que não eram minhas?
Estado sombrio, de pensamentos confusos, responsabilidades questionadas, situação jurídica complicada. Embolam-se etapas de projeto, construção, vistoria, manutenção, na tentativa de achar o culpado pelo desastre. É quando aparecem as brechas, não as trincas concretas, mas as inúmeras falhas que acumulam-se em tantos empreendimentos imobiliários.
E as pessoas, que dormiam pensando ter resolvida a questão de um teto sobre suas cabeças, subitamente acordam para uma realidade onde poucos são os parâmetros palpáveis para avaliar a situação de uma estrutura supostamente segura. Carimbos e assinaturas, registros e escrituras, vistorias e relatórios, papéis sem sentido num mundo de poeira e devastação.
E então, aparecem vilões de última hora, e a sociedade elege a caça às bruxas do momento. Para acalmar a multidão enraivecida, questionam-se leis, instauram-se processos, medidas que cairão no esquecimento com o tempo. O mesmo tempo que não vai apagar o desastre da minha memória. O tempo que provavelmente não verá punidos os culpados. O tempo necessário para produzir novas tragédias, exploradas nos noticiários, acompanhadas com lágrimas nos olhos pelos espectadores.
Com tantas catástrofes naturais, guerras absurdas, total falta de infra-estrutura para populações carentes, sinto-me estranhamente injusta e injustiçada, enviada à categoria dos sem-teto por uma mera ironia do destino. Destino ou desatino? Total loucura de um todo que deveria funcionar mas mostra falhas aparentes, que poderiam até ter sido vislumbradas, caso estivesse eu mais bem informada ou simplesmente mais atenta.
Mas são tantas as pessoas que compram apartamentos sem precisar experimentar grandes problemas! Será que elas investigam a construtora, visitam lançamentos anteriores, acompanham o andamento da obra? Não quero parar de acreditar na humanidade: é claro que existem bons profissionais em todas as áreas. E onde eles estavam quando poderiam ter previsto a tragédia?
Cai com estrondo o que restava do prédio. Inútil contabilizar as perdas, melhor pensar no futuro distante, na casa ideal, no projeto de decoração. Abstrair é não pensar na própria limitação de solucionar problemas. Varinha mágica, pudesse você funcionar, reconstruiria vidas e moradias, a partir dos escombros que ainda estão envoltos na fumaça. Quando a poeira baixar, quando o carnaval chegar, vou sair para comemorar estar viva. E começar a batalhar por outra casa, outras fotos, outros ares.


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