quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Consumo e decoração

Ela acordou e olhou ao redor, os longos cabelos emoldurados pela cama dourada com detalhes cor de rosa. Um suspiro alto e o sol entrando pelas frestas da janela. Olhou em volta e se sentiu motivada a dançar, praticar um pouco do seu passatempo preferido, que poderia até ser uma profissão se não fosse o seu compromisso fiel com a de modelo.
Pegou o telefone, discou um ramal interno e deu algumas instruções, saltou da cama com um sorriso nos lábios e se dirigiu ao banheiro. Trocou de roupa e voltou ao quarto, que havia se transformado, não tinha mais os móveis, apenas um espelho grande no qual ela se auto admirou enquanto dançava. Sem dúvida, uma mudança de estrutura totalmente revolucionária, de alta tecnologia, que permitiu uma mudança tão rápida quanto a sua necessidade de adaptação.
Voltou ao banheiro para um prolongado banho de espumas na banheira rosa, enquanto mais uma vez o quarto/sala de dança se transformava em um imenso closet, com as roupas aparecendo penduradas em cabides, chapéus e todo o tipo de acessórios espalhados por prateleiras de várias cores.
O que fazer quando o sonho de consumo é o único referencial e cada parede se abre a um simples toque, mostrando mais e mais roupas? E quando o desejo é tão poderoso que o planejamento já tem as possibilidades de humor para trocar todo um cômodo em poucos minutos?
Nada como a vida mortal de idealizar uma mudança, passar para o projeto, o planejamento e a execução para se chegar a um resultado após uma reforma ou, às vezes, apenas mudanças na decoração.
Mas para ela nada disso importa, envolta em suas roupas espalhafatosas, desce rápida a escada, passsa pela piscina, volta à sala para pegar a bolsa e dedilhar o piano, olha em volta admirando a própria casa e... muda de ideia. Tira a roupa para um mergulho enquanto os cachorros ficam ao lado da piscina dormindo.
Ao sair da piscina e voltar à sala, não precisa subir ao quarto! As roupas apareceram na sala, suprindo os seus desejos e suas necessidades mais imediatas, em uma demonstração de decoração utilitária e consumista, a mais nova invenção do "closet em qualquer lugar"! Suspira alto, veste outra roupa, pega de novo a bolsa e retoma o caminho até a garagem onde o carro conversível a espera.
A porta da garagem se abre, é claro que automaticamente, bem a tempo dela sair atrasada, sempre pensando na sua imagem, na importância da aparência para a sua profissão de Barbie, a boneca dos sonhos, a casa de plástico que é o desejo de consumo das meninas e a impossibilidade prática da realização desse desejo na vida real, nas reformas e decorações, na vida prática de casas que absolutamente não se prestam a esse papel.

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