domingo, 28 de outubro de 2012

Reciclando

Todos da família concordavam: ele tomava muito refrigerante. Eram sempre garrafas de dois litros, um hábito nada saudável que só havia piorado nos últimos anos.
Ele era tão novo e, de novo, todos da família reclamavam. Mas ele não ligava, e colecionava as embalagens PET com orgulho pelo volume consumido. Até aí, apenas mais um conflito familiar, um problema de obesidade, maus hábitos alimentares e uma certas aderência à moda das embalagens gigantes.
Aos poucos, além da preocupação com a saúde, apareceu uma questão bastante prática: onde achar espaço para guardar todas aquelas embalagens vazias. Amontoando-se por todos os cantos, elas começavam realmente a incomodar.
E foi em um trabalho de escola que o sobrinho mais velho encontrou a solução. Fez alguns itens com garrafas pet recicladas e chegou em casa com a novidade. No início, todos acharam engraçado mas não perceberam que poderia ser uma saída sustentável a longo prazo, sem querer brincar com o trocadilho.

Mesmo assim, começaram a brincar com a ideia, fazer alguns itens como bichinhos e chapéus, que o próprio sobrinho vendia nos dias da feira. Depois, com o acúmulo das garrafas começando de fato a atrapalhar a circulação interna, iniciaram projetos para usar mais garrafas, como poltronas e mesinhas, itens de decoração que não só eram vendidos como passaram a substituir os móveis velhos pelas criações coletivas.

E o próprio consumidor desvairado, aquele que havia criado essa necessidade, passou a se interessar pelo projeto familiar, montar os móveis, levá-los para vender, andando de um lado para o outro, esquecendo a sua compulsão por refrierantes. Pensando em alternativas mais radicais, montou divisórias para ambientes e toda a sorte de itens que consumiram o estoque de garrafas PET.

Negócio em expansão, começaram a comprar as garrafas, fizeram uma parceria com uma ONG, entraram no ramo da decoração sem lembrar mais, àquela altura, o fato gerador bizarro que tinha sido o fato propulsor de um negócio tão lucrativo e criativo.
 

sábado, 27 de outubro de 2012

Implosão

Enquanto tudo desmorona ao meu redor, olho fotos antigas na expectativa de encontrar algum sentido em tudo isto. Pessoas sozinhas e agrupamentos, paisagens que certamente já mudaram, fragmentos dentro de uma caixa velha de sapatos. Ignoro o presente enquanto emociono-me com o passado até descobrir que as fotos não são minhas. Como são semelhantes as lembranças de todos! Pessoas sozinhas e agrupamentos, paisagens que não existem mais... quantas horas passei com lembranças que não eram minhas?
Estado sombrio, de pensamentos confusos, responsabilidades questionadas, situação jurídica complicada. Embolam-se etapas de projeto, construção, vistoria, manutenção, na tentativa de achar o culpado pelo desastre. É quando aparecem as brechas, não as trincas concretas, mas as inúmeras falhas que acumulam-se em tantos empreendimentos imobiliários.
E as pessoas, que dormiam pensando ter resolvida a questão de um teto sobre suas cabeças, subitamente acordam para uma realidade onde poucos são os parâmetros palpáveis para avaliar a situação de uma estrutura supostamente segura. Carimbos e assinaturas, registros e escrituras, vistorias e relatórios, papéis sem sentido num mundo de poeira e devastação.
E então, aparecem vilões de última hora, e a sociedade elege a caça às bruxas do momento. Para acalmar a multidão enraivecida, questionam-se leis, instauram-se processos, medidas que cairão no esquecimento com o tempo. O mesmo tempo que não vai apagar o desastre da minha memória. O tempo que provavelmente não verá punidos os culpados. O tempo necessário para produzir novas tragédias, exploradas nos noticiários, acompanhadas com lágrimas nos olhos pelos espectadores.
Com tantas catástrofes naturais, guerras absurdas, total falta de infra-estrutura para populações carentes, sinto-me estranhamente injusta e injustiçada, enviada à categoria dos sem-teto por uma mera ironia do destino. Destino ou desatino? Total loucura de um todo que deveria funcionar mas mostra falhas aparentes, que poderiam até ter sido vislumbradas, caso estivesse eu mais bem informada ou simplesmente mais atenta.
Mas são tantas as pessoas que compram apartamentos sem precisar experimentar grandes problemas! Será que elas investigam a construtora, visitam lançamentos anteriores, acompanham o andamento da obra? Não quero parar de acreditar na humanidade: é claro que existem bons profissionais em todas as áreas. E onde eles estavam quando poderiam ter previsto a tragédia?
Cai com estrondo o que restava do prédio. Inútil contabilizar as perdas, melhor pensar no futuro distante, na casa ideal, no projeto de decoração. Abstrair é não pensar na própria limitação de solucionar problemas. Varinha mágica, pudesse você funcionar, reconstruiria vidas e moradias, a partir dos escombros que ainda estão envoltos na fumaça. Quando a poeira baixar, quando o carnaval chegar, vou sair para comemorar estar viva. E começar a batalhar por outra casa, outras fotos, outros ares.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Consumo e decoração

Ela acordou e olhou ao redor, os longos cabelos emoldurados pela cama dourada com detalhes cor de rosa. Um suspiro alto e o sol entrando pelas frestas da janela. Olhou em volta e se sentiu motivada a dançar, praticar um pouco do seu passatempo preferido, que poderia até ser uma profissão se não fosse o seu compromisso fiel com a de modelo.
Pegou o telefone, discou um ramal interno e deu algumas instruções, saltou da cama com um sorriso nos lábios e se dirigiu ao banheiro. Trocou de roupa e voltou ao quarto, que havia se transformado, não tinha mais os móveis, apenas um espelho grande no qual ela se auto admirou enquanto dançava. Sem dúvida, uma mudança de estrutura totalmente revolucionária, de alta tecnologia, que permitiu uma mudança tão rápida quanto a sua necessidade de adaptação.
Voltou ao banheiro para um prolongado banho de espumas na banheira rosa, enquanto mais uma vez o quarto/sala de dança se transformava em um imenso closet, com as roupas aparecendo penduradas em cabides, chapéus e todo o tipo de acessórios espalhados por prateleiras de várias cores.
O que fazer quando o sonho de consumo é o único referencial e cada parede se abre a um simples toque, mostrando mais e mais roupas? E quando o desejo é tão poderoso que o planejamento já tem as possibilidades de humor para trocar todo um cômodo em poucos minutos?
Nada como a vida mortal de idealizar uma mudança, passar para o projeto, o planejamento e a execução para se chegar a um resultado após uma reforma ou, às vezes, apenas mudanças na decoração.
Mas para ela nada disso importa, envolta em suas roupas espalhafatosas, desce rápida a escada, passsa pela piscina, volta à sala para pegar a bolsa e dedilhar o piano, olha em volta admirando a própria casa e... muda de ideia. Tira a roupa para um mergulho enquanto os cachorros ficam ao lado da piscina dormindo.
Ao sair da piscina e voltar à sala, não precisa subir ao quarto! As roupas apareceram na sala, suprindo os seus desejos e suas necessidades mais imediatas, em uma demonstração de decoração utilitária e consumista, a mais nova invenção do "closet em qualquer lugar"! Suspira alto, veste outra roupa, pega de novo a bolsa e retoma o caminho até a garagem onde o carro conversível a espera.
A porta da garagem se abre, é claro que automaticamente, bem a tempo dela sair atrasada, sempre pensando na sua imagem, na importância da aparência para a sua profissão de Barbie, a boneca dos sonhos, a casa de plástico que é o desejo de consumo das meninas e a impossibilidade prática da realização desse desejo na vida real, nas reformas e decorações, na vida prática de casas que absolutamente não se prestam a esse papel.

domingo, 7 de outubro de 2012

Labirinto

A saída é achar o telefone e pedir ajuda à polícia.”, gritou uma voz de mulher vinda de um dos quartos. “Mas onde fica o telefone? ”, perguntou um homem perdido entre um banheiro com três portas e o que parecia ser um closet ainda sem prateleiras (ou seria um outro banheiro sem as louças sanitárias?). Em algum ponto da casa, latia um cachorro histérico, já ligeiramente rouco.
Os homens da mudança, por sua vez, tentavam decidir onde colocar a mobília sem a indicação dos donos da casa, que tinham se perdido pelos meandros da construção. Amedrontados, tratavam de permanecer o mais próximo possível da porta de entrada, amontoando caixas e empilhando cadeiras para ganhar espaço. Economizar espaço? Em uma casa de quinhentos metros quadrados? Mas eles não queriam se arriscar...
Um dos funcionários da empresa de mudança precisava desesperadamente ir ao banheiro e ousou abrir algumas portas, sem perder de vista os colegas. Encontrou a cozinha, um cômodo com prateleiras até o teto (provavelmente um escritório) e uma outra sala, com uma grande porta de vidro dando para o jardim. Os três ambientes tinham pelo menos duas outras portas, que podiam ser avistadas mas estavam totalmente fechadas, sem deixar sequer entrever o seu interior. Para piorar as coisas, as dobradiças eram do tipo vai-e-volta, não permitindo aventurar-se e manter o contato visual ao mesmo tempo.
Mas, como as necessidades da natureza não têm lá muita paciência, o homem acabou pedindo a um outro que mantivesse a porta da sala grande aberta enquanto ele tentava achar o que procurava. Mesmo com má vontade, porque atrasava o serviço e os móveis eram muitos, o outro aceitou o encargo. A primeira porta foi aberta mas mostrou apenas mais um lote de portas, distribuídas em um corredor largo e bem iluminado, com a luz do sol entrando através de uma clarabóia. Andando no sentido horário, o funcionário respirou fundo e girou a maçaneta da segunda porta. Dentro, encontrou uma mulher dormindo, que se identificou como a faxineira, chorou de emoção por ser resgatada e contou que estava tentando sair da casa desde o dia anterior. Os dois homens se entreolharam, indicaram a saída que estava exatamente a duas portas da infeliz, e tentaram a terceira porta que, finalmente, abriu-se para o paraíso, quer dizer, o banheiro.
A esta altura, o dono da casa tinha conseguido achar um telefone mas ficou na dúvida do número para onde deveria discar. Chamar a polícia parecia um pouco melodramático. O corpo de bombeiros soava mais simpático mas excessivamente barulhento. Foi quando o seu olhar se iluminou: tinha que chamar o arquiteto! Começou por ligar para o próprio escritório, onde a secretária deu-lhe o número desejado mas, como não tinha onde anotar, pediu que ela fizesse o contato e explicasse a situação. Tudo se resolveria com uma planta da casa, pensou aliviado. Foi quando percebeu que não havia desligado o telefone, tal o estado de nervosismo. Do aparelho, saía a voz da secretária que, atônita, fazia a pergunta que ele mais detestaria ouvir no momento: “Como? O senhor está perdido na sua própria casa?”

sábado, 6 de outubro de 2012

Telefone Hiperativo

No início, era um telefone como qualquer outro. Funcionava a contento, quebrava ocasionalmente e, basicamente, servia bem aos seus donos. E apesar de ser chamado simplesmente “o telefone”, é óbvio que podia ser subdividido em linha telefônica e aparelho, embora na época da instalação fossem duas coisas praticamente inseparáveis. Tanto, que o aparelho vinha junto, sendo de propriedade da operadora que, gentilmente, alugava o mesmo para que as pessoas pudessem, de fato, usar a linha. Por isso, até hoje algumas pessoas não conseguem entender o conceito, cuidando zelosamente de aparelhos ultrapassados por medo de perder “o telefone”, o que significaria, em muitos casos, perder o contato com o mundo exterior.

E naquela época nem todos tinham telefone, o que significava ser o centro da vizinhança, com a oferta de um meio de fazer chamadas sempre muito curtas, apenas para informar fatos urgentes como doença, nascimentos e outros. E o telefone, bem como os donos da casa, era sempre muito solícito, raramente dando defeito nessas ligações, o que também era um fato comum com as linhas que já então povoavam de fio os postes e a vida das pessoas.
Bem, depois passou por mudanças, viu ser acrescido de extensões, passando posteriormente por mudança de prefixo. E como fora instalado em um apartamento espaçoso e próprio, nunca passou por mudança de endereço. Até que um dia, toda a central a qual pertencia, seguindo os fios dos postes que parecem nunca ter fim, foi amplamente remodelada, atualizada. Mudanças de máquinas e, mais uma vez, de prefixo, testes e mais testes. Neste período, ocorreram problemas previsíveis e contornáveis, compartilhados por outros telefones da vizinhança. Foi quando, finalmente, o aparelho verde bandeira foi devolvido à companhia por absoluta incompatibilidade com a modernidade.
Foi aí que as coisas começaram a mudar. No início, algumas ligações não foram completadas, o que motivou a chamada do técnico, que diagnosticou problema interno, que fez com que o dono da casa chamasse o zelador. O zelador, um quebra-galho de competência inquestionável, investigou o problema e descobriu que as únicas ligações não completadas eram dirigidas ao namorado da filha do dono da casa! Mas, como ele era mesmo claramente um cafajeste (palavras da mãe da moça), o defeito foi relevado, o namoro acabou e tudo ficou calmo por uns tempos.
Os fatos estranhos recomeçaram durante a copa do mundo, quando acabou a luz e todos, desesperados, tentavam achar um lugar para ver o jogo do Brasil, que começaria dali a minutos. Correram ao telefone, ligaram para vários amigos e parentes e sempre dava ocupado ou ninguém atendia. Na hora do jogo, o filho mais velho, quase chorando, pegou o fone e ouviu, estupefacto, o hino do Brasil! Ouviram o primeiro tempo pelo telefone e aprenderam que, apesar da praticidade da eletricidade, é sempre bom ter um rádio de pilha de reserva. No dia, acharam engraçada a coincidência mas não deram atenção maior ao fato.
Só que as ocorrências passaram a ser mais explícitas, levando os mais crédulos a acreditar que, de fato, o telefone estava interagindo com os donos da casa. Em dias de previsão de fortes chuvas, ouvia-se a previsão no telefone. Todos os aniversariantes eram saudados com uma gravação de Parabéns a Você no dia certo. O telefone tocava quando o despertador falhava, mesmo não tendo sido programado. Personas não-gratas tinham suas ligações simplesmente cortadas pelo meio da conversa, quando conseguiam ligar... E por aí vai: o telefone avisou sobre um vazamento de gás, ligou para a polícia na ocasião de um assalto ao prédio, começou a dar receitas para variar o cardápio, oferecer sugestões para boas aplicações na bolsa, dar a temperatura, sugerir combinações de roupa...