sábado, 22 de setembro de 2012

Textura

Tinha uma noção bem precisa do que queria. Algo forte, impactante. Mas, ao mesmo tempo, com um apelo conhecido. Sim, queria um estranhamento familiar, provocar uma reação quase orgânica, logo na entrada, na parede oposta à porta.

Primeiro, pensou em uma cor contrastante e vasculhou catálogos de tintas, ávida por encontrar aquela tonalidade exata que serviria ao seu propósito. Convencida de que precisava de algo mais visceral, encantou-se pela idéia de uma textura que exprimisse suas intenções.

E aí foi buscar nas suas emoções o que estava tentando exprimir. Fechou os olhos, respirou fundo e a imagem que lhe veio à mente foi a terra. O chão molhado cheirando à chuva fresca e o desenho do barro molhado. Terracota com aspecto rústico e envelhecido foi a sugestão. Feito o teste no canto da parede, ela percebeu a obviedade do tema, a interpretação do apego às raízes.

Queria algo mais audacioso, que manifestasse um movimento constante, uma mutação. E a imagem que surgiu foi a do mar e suas ondas incessantes. Uma tonalidade entre o verde e o azul, um trabalho mais dirigido para formar o desenho de altos e baixos e alí estava o seu cantinho do mar, opondo-se ao barro molhado no outro extremo da parede. Mas ficou tão frio, calmo, um estado de paz e harmonia que não pode ser permanente sem suscitar uma total imobilidade.

Sim! Queria criatividade, audaciosamente indo onde outros não tinham estado. Um foco brilhante e indagador, o calor das cores fortes. E o seu querido sol surgiu resplandecente, provocando e aquecendo, convidando e repelindo. No meio da parede em questão foi feita uma massa homogênea, de um amarelo radiante, com um movimento circular que a tudo parecia englobar. Colocou seus óculos escuros e foi fazer o jantar.

Enquanto a água fervia, observava o movimento do fio de azeite, tão sereno. Cansada das tentativas frustradas, já cogitava o branco para apaziguar o espírito da parede e o seu próprio. Voltou à sala e contemplou as três tentativas. Colocou uma música e lembrou-se do tempo do spagheti. Na cozinha, misturou o molho com cuidado, feliz por antever sua fome saciada por algo tão simples, prosaico, uma invenção que remetia à sua infância de avós italianos.

Serviu um cálice de vinho e sentou-se com o prato de macarrão ao sugo bem defronte da parede, foco de sua atual preocupação. Esvaziando sua mente de qualquer sugestão prévia, perguntou-se: o que quero agora? E a única resposta que lhe veio foi o vermelho do vinho, o vermelho do macarrão. A sede parecia secar-lhe a garganta diante da resposta imediata. Tomou o vinho de um gole e ficou a contemplar o prato à sua frente. O olhar ia do prato à parede, da parede ao prato.

Até hoje, o foco central da casa é aquela pequena parede vermelha com movimentos aleatórios manifestados naquela textura única, que parece saltar aos olhos, gulosamente convidando, instintivamente repelindo. Momento único de inspiração da dona da casa!

Nenhum comentário:

Postar um comentário