sábado, 29 de setembro de 2012

Pintando

Foram vê-lo juntos e gostaram na hora. O apartamento era quase exatamente o que eles queriam (porque nunca é exatamente). Acertados os trâmites burocráticos, fitaram estáticos aquele que seria o seu lar, futuro não muito longínquo. Entre planos e sonhos, teceram roteiros e devaneios.
Casamento marcado, todos da família informados, trataram de estrear o apartamento ainda não mobiliado. Com direito a champanhe e luz de velas (até porque a luz estava desligada), combinaram detalhes, definiram lugares, trocaram olhares, etcetera e etcetera.
Como o apartamento precisava de uma pequena reforma no banheiro (por causa de um vazamento “eterno enquanto dura”), trataram de procurar o encanador e acertar os detalhes com o proprietário do apartamento de cima que estava, literalmente, careca de saber do assunto. E como essas coisas levam um tempo, aproveitaram para ir comprando os móveis e eletrodomésticos mais básicos.
Foi quando se depararam na escolha da cor da pintura. Conversaram, pensaram, reavaliaram e não conseguiam chegar a um acordo. Ele era da opinião fechada, unitária e clara do branco, até porque o apartamento não era grande. Mas ela, por sua vez, queria poder distribuir as cores pelos cômodos, associando as funções aos estados de espírito apropriados, tendo lido muito sobre as cores e as emoções que elas despertam, sabendo que o ambiente pode ser totalmente modificado pelas cores.
Ele acabou cedendo, concordando em verem juntos alguns testes distribuídos por ela pelas paredes. Na verdade, ia ser bastante rápido: ela compraria as tintas, o pintor faria o teste, ele daria uma olhada, eles chegariam a uma conclusão e o pintor faria o seu trabalho rapidamente, até porque era um excelente profissional. A fórmula podia ser simples, mas na prática...
A primeira vez que ela foi à loja de tintas, ficou perdida, perplexa, extasiada. Não entendia as diferenças de uso das tintas látex, óleo, acrílica, os rolos e seus vários tipos, os pincéis dos mais variados tamanhos! Deu meia volta, e foi buscar o pintor. Ele explicou a aplicação dos diferentes tipos de tinta, calculou a quantidade de cada e até explicou os efeitos gerais das cores, com as mais claras ampliando os espaços e as mais escuras diminuindo. Mas também tinha a opção de fazer apenas uma parede de cor contrastante, o que podia ficar bem, bonito. Ela não quiz nem ouvir essa possibilidade. Já eram tantas as cores e a dificuldade de combinação pensando em um cômodo de cada cor!
Chegou ao apartamento exultante, o pintor aprovara as suas escolhas e apenas sugerira que ela clareasse um pouco mais o amarelo. Cada cor fora aplicada nas paredes corretas quando o noivo chegou e, horrorizado, constatou que ela não estava brincando quanto à sua decisão . Brigaram feio, o pintor saiu de fininho, ela ficou chorando sozinha, encontrando felicidade e conforto nas cores alegres e suaves que escolhera. Casamento desfeito, depois da pintura encontrou o amor justamente no pintor.

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