quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O homem que fazia chover

Sabia há vários meses que precisava tomar uma providência. Acompanhava angustiado as previsões do tempo, dizendo a si mesmo que ainda faltavam alguns meses para a estação das chuvas. Por via das dúvidas, e para não ficar muito nervoso, convencia-se de que não acreditava nessas coisas: previsões... E ia trabalhar fingindo não se preocupar.

Pegos de surpresa por uma chuva mais forte fora de época, passavam todos da casa por uma obrigatória faxina-enxuga-enxuga. Mas até que tinha seu lado bom, as goteiras generalizadas tinham provocado uma total redecoração da casa, agitando a imobilidade de vários anos. Agora, estofados amontoavam-se em um canto para abrir amplos espaços de circulação...

Mas era só decidir tomar uma atitude, marcar com o dito cujo telhadista e pronto: chovia. Teve até o dia que o magrelo chegou, subiu no telhado, começou a destelhar e, de repente, o maior estrondo! O céu azul transformou-se em chumbo em questões de segundos, grossas gotas caíram sem piedade, formando um temporal que durou várias horas e alagou muitas ruas do bairro.

Depois de várias tentativas frustradas, com lonas coloridas espalhadas sobre o telhado para funcionar como uma garantia extra, houve um momento solene de reunião familiar. Todos puderam votar entre contratar um desconhecido ou continuar tentando driblar a chuva. O tal do magro ganhou por unanimidade, fruto direto de reformas desastrosas feitas por desconhecidos sem-referência na mesma residência. Faço aqui um parênteses para explicar que “magro” não é uma opção politicamente incorreta que denote preconceito, aliás é assim mesmo que ele é conhecido, Magro do Telhado.

Tomada a decisão, marcaram vários dias e sempre a mesma coisa: chovia. Começaram então a usar expedientes escusos como marcar um dia, querendo dizer o anterior. Assim, se combinassem Quinta, queria dizer Quarta. Ele aparecia no dia anterior ao “combinado” e logo as nuvens cobriam o céu. Tentaram mudar o foco da preocupação, achando que o problema não era o dia combinado mas o caminho que o Magro percorria até a casa, dando tempo para o tempo mudar. Como se o tempo tomasse essa decisão de propósito, vigiando e punindo aquela família particular. Afinal, o homem tinha a mesma profissão há anos e nunca tivera este problema com outros clientes. É claro que às vezes acontecia, e certamente complicava na época das chuvas, mas essa verdadeira perseguição!

Com a previsão do tempo a favor, o Magro fingiu ir para um outro cliente bem perto da casa em questão e, lá chegando, certificou-se do céu com poucas nuvens brancas, nada ameaçadoras. Saiu ele pela porta dos fundos, correu até o endereço amaldiçoado e conseguiu trabalhar exatamente quarenta minutos antes do maior temporal desabar sobre a cidade. Agora, todos os envolvidos estavam totalmente convencidos de que só podia ser um pesadelo. Chegaram a pensar em subornar os boletins de previsão de tempo, procurar ajuda espiritual, fazer terapia, e outras saídas mais radicais que não valem a pena ser mencionadas. Frustrado, o dono da casa dispensou o Magro que, visivelmente abatido, virou motorista de táxi para tirar algum proveito dos dias chuvosos. Quanto ao problema das goteiras, elas foram resolvidas por outro profissional qualificado, que enfrentou uns dias de chuva, outros de sol.

Um comentário:

  1. HAHAHAHAHAH! A-DO-REI!
    e não é que tem coisas que parecem mesmo que nos perseguem?

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