domingo, 16 de setembro de 2012

Móveis antigos

Gosto de reciclar móveis, repensar suas utilidades, extrapolar suas funções. No tempo, eles ganham novos ares, às vezes novas cores, invariavelmente novos estofados. E nesse hábito que está comigo há tempos, também vou recolhendo pedaços de histórias alheias, restos do passado, fantasmas aos montes. Na cadeira de balanço, senta-se uma jovem que lá se balança todas as manhãs. 

Apesar do pé da máquina de costura hoje ser uma mesinha, ele de vez em quando é vigorosamente acionado para dar conta do trabalho da atarefada costureira loira e risonha. No sofá de couro, senta-se lendo um homem grisalho de olhar triste, fumando o seu cachimbo em tempos que fumar dentro de casa não era o ato de transgressão que hoje tomou conta dos vigiadores da paz.
Quanto tempo até o gato fantasma que dorme sonolento em cima da poltrona perceber na cozinha, ao lado do guarda comida, o cachorro rabugento que também não tem nenhuma presença material?
Quando saio para o trabalho, fecho a porta sabendo que todos estarão lá, fazendo-se companhia, aguardando a minha volta, não pela comida, já que isso eles não fazem, mas pela companhia que traz notícias frescas, um ouvido atento e a atenção para que possam povoar a minha vida.
Aos amigos, informo sempre que não me sinto só vivendo sozinha, antes de sinto muito bem acompanhada pelos meus livros, minhas coisas, minhas memórias. Nesse momento, oculto de todos essa população secreta, que às vezes sorri quando esse tipo de conversa se dá na minha própria sala.
E temos esse trato: respeitar sempre a presença de estranhos e mesmo a minha própria intimidade. Fantasmas no banheiro, nem pensar! Mas de fato, quando olho ao redor, sinto a personalidade dos móveis encher o ar, soltando a sua fumaça de passado e elegância, trazendo um cheiro bom de lustra móveis.
A madeira de antigamente é diferente e se faz sempre presente, nos rangidos que já não sei se são os móveis ou os fantasmas, para os quais ofereço chá mesmo sabendo que não vão tomar.
Casa é uma palavra cheia de ar, que dá fôlego para um dia difícil, que aquece os dias frios, que aconchega à noite. É um exercício de autoria, onde nos permitimos fazer o que o coração (ou o bolso) manda.
Se antigamente a casa era só um lugar para morar e os móveis quase essenciais, hoje a ampla possibilidade de cores e combinações faz com que possamos dele nos apropriar.
Decisões iniciais tomadas, as pessoas têm a liberdade de sair fazendo, usando móveis planejados, copiando revistas, contratando profissionais que ajudam na decoração ou simplesmente apelando para o coração e ir combinando móveis e fantasmas.

2 comentários:

  1. Minha casa também é assim, Claudinha! Cheia de fantasmas que habitam móveis antigos!
    Amei sua cronica e torço pra que você escreva o suficiente para um dia publicar e eu poder dizer pra todo mundo que sou sua amiga com muito orgulho! :)

    ResponderExcluir
  2. Gostoso ter uma leitora como você! Estou pegando a ponta do novelo, desenrolando ideias e enredos e vamos ver no que vai dar. São muitos temas, esse é um deles. Por aqui decidi começar. Bjs.

    ResponderExcluir