domingo, 30 de setembro de 2012

Caverna

Comprou a casa sabendo que precisava de uma reforma, casa antiga, bem conservada, mas com aquele ar de passado engarrafado. Enfim, levou um tempo pensando nos seus desejos, nas necessidades da família.
Aprovado o projeto, decidiu por uma ampliação na parte de baixo da casa, com terreno em declive e um péssimo aproveitamento dessa área, que formaria um bonito jardim com área de lazer. Para montar o salão e a churrasqueira, precisou fazer uma nova coluna e eis que apareceu um buraco!
Por baixo da casa, ocupando o vão entre o declive do terreno e a estrutura de sustentação, o espaço havia sido usado para armazenar o entulho e simplesmente fechado por uma parede fina. Com a ideia de ampliar o salão já incluído no projeto, os operários foram cavando, retirando o entulho acumulado, até encontrar a rocha da encosta. Nada como uma casa sem planta e com anos de história para virar um estudo arqueológico, uma adivinhação de intenções.
Descoberta a caverna, as paredes de pedra passaram a compor um salão fundo e escuro com paredes de pedra, temperatura específica, teto baixo. Mas, o que fazer com esse imenso buraco?, perguntou a mulher sem entender toda aquela animação. É mais uma curiosidade do que uma utilidade!
De fato, passado o primeiro momento de descoberta, só a filha adolescente, que até então ocupara um quarto arejado e amplo, filha única com adoração pelo rosa, permanceu com interesse pelo espaço.
Aos poucos, começou a levar suas coisas, passar horas desenhando e lendo no subsolo até que se mudou para lá. No início, deixa estar, era mais uma mania, uma vontade de escandalizar, junto com um bocado de introspecção, que era notável já então.

E as amigas, no início meio curiosas pela opção começaram a rarear, se afastar até que não tinham mais nenhuma ligação. Passando a dormir cada vez mais de dia, concluiu o ensino médio estudando à noite, mudou o rosa pelo preto e dizem na vizinhança que sai a vagar de madrugada, em um misto de sonambulismo e vampirismo.





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