sábado, 15 de setembro de 2012

Andaime

Confie em mim, disse o homem baixo, e esticou a mão. O outro, semi dependurado na madeira improvisada como andaime, automaticamente esticou a mão de volta.

Mas aí o primeiro parou no meio do caminho, como se pensando se confiar seria uma boa opção. Desequilibrado, olhava alternadamente o vazio abaixo, na altura do segundo andar da obra, analisando a situação.

A situação toda era precária, uma reforma que já durava mais do que o pretendido, relações de trabalho conflituosas, pedreiros que chegavam e partiam, um empreiteiro estressado e os donos da casa a beira de um ataque de nervos.

E na ponta do andaime... um pedreiro dependurado, dependendo da ajuda do mesmo empreiteiro que ele conhecia pouco mas no qual não confiava. Luta de classes? Lembranças de situações vividas recentemente, promessas tantas não cumpridas, segredos e reviravoltas no ambiente de trabalho.

Horários extensos sem pagamento de hora extra, falta de equipamento de proteção, uma sensação de não ter nenhuma fé no dia seguinte. Todas as madrugadas, na condução, pensando que talvez chegasse no lugar da obra e fosse dispensado, arbitrariamente, com sucessos e fracassos dependendo mais do humor do que da competência.

Não só de material e prazos é feita uma obra. Ela é feita de gente e essa gente vai e vem no seu anonimato. E ele ouvia a voz do outro ficando mais nervosa, mais distante a medida em que o andaime se afastava da construção. Se tivesse a instrução e a compreensão do panorama psicológico, diria que tinha problemas de confiança.

E na ânsia de salvar o pedreiro, parte de sua equipe reduzida e sempre sobrecarregada, o outro se debruça perigosamente. Por um momento ambos sabem que é o último instante antes da queda. O pedreiro agarra a mão estendida, o empreiteiro por pouco não vai junto mas se equilibra e conseguem ambos respirar aliviados ao caírem sentados no chão dentro da casa.

Momentos de silêncio antecedem o último momento desse relacionamento: o pedreiro agradece e pede demissão.

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