domingo, 30 de setembro de 2012

Reforma

Quando você voltar, tudo vai estar diferente. Vai ser uma surpresa especial ver a casa toda arrumada, reformada, aqueles pequenos detalhes que sempre sonhamos, construídos em pensamento mas não em realidade. Da idéia à concretização, quantos anos... desastrosas tentativas. Lembra daquele pedreiro que entupiu todos os canos? E o eletricista que quase morreu eletrocutado? À distância, parecem pequenas crônicas engraçadas. Mas na hora... o caos da reforma! A casa literalmente aos pedaços e o dinheiro acabando.
Mas agora tudo vai ser diferente. Desta vez, fiz tudo certo. Projeto completo, orçamento detalhado, profissionais contratados, pesquisa de mercado.
Trabalhei sem parar, juntei o dinheiro, com perseverança observando, até chegar o momento.
Tive alguns contratempos com os profissionais que passaram por um processo seletivo minucioso. No decorrer do tempo de maturação do projeto, alguns desistiram ou sumiram, houve um caso de um pedreiro que se aposentou e um eletricista que morreu elotrocutado (sinal que talvez não fosse realmente um bom profissional e que possa ter havido algum item que eu não tenha avaliado corretamente).
Materiais foi um caso à parte, pois tive que ter cuidado extremo com prazo de validade para não ocasionar desperdício. E esses materiais duram tão pouco! Quase não pude comprar com a antecedência que queria os acabamentos, tendo que me concentrar no material pesado e básico. Com isso, a casa virou um depósito por um tempo. Mas é preciso perseguir o sonho, não é mesmo?
Um pouco de pó e caos não podem ser um empecilho tão poderoso a ponto de interromper o nosso sonho, o projeto desenhado, visto e revisto no decorrer das noites, dos fins de semana sonhando juntos.
Agora nada disso importa, são lembranças carinhosas de dificuldades ultrapassadas. Estou encarando as etapas finais, as últimas decisões, pagando prestações que sobraram, retirando entulho (nossa, quanto entulho sai de uma obra como essa!).
E a casa está ficando linda! A cor perfeita, os detalhes impecáveis, a qualidade de tudo foi um cuidado que sempre tive e que me extremei dessa vez. Também tive cuidado para não estragar os móveis e aproveitei o marceneiro que chamei para alguns pequenos detalhes e pedi para dar uma reformada no que estava em pior estado.
E o estofado... ficou tão bonito... porque a estrutura estava boa, só tive que pedir para dar uma reforçada no enchimento e tudo ficou perfeito. Acho que ainda essa semana eu acabo os últimos detalhes, consigo fazer a faxina completa e aí... o que faço depois?
Há quanto tempo você se foi? Como faço para entrar em contato? Será que o seu cabelo ficou branco como o meu? Será que você ainda gosta de azul? Ufa! Isso eu posso resolver. Se você não gostar, posso pintar tudo outra vez!

Caverna

Comprou a casa sabendo que precisava de uma reforma, casa antiga, bem conservada, mas com aquele ar de passado engarrafado. Enfim, levou um tempo pensando nos seus desejos, nas necessidades da família.
Aprovado o projeto, decidiu por uma ampliação na parte de baixo da casa, com terreno em declive e um péssimo aproveitamento dessa área, que formaria um bonito jardim com área de lazer. Para montar o salão e a churrasqueira, precisou fazer uma nova coluna e eis que apareceu um buraco!
Por baixo da casa, ocupando o vão entre o declive do terreno e a estrutura de sustentação, o espaço havia sido usado para armazenar o entulho e simplesmente fechado por uma parede fina. Com a ideia de ampliar o salão já incluído no projeto, os operários foram cavando, retirando o entulho acumulado, até encontrar a rocha da encosta. Nada como uma casa sem planta e com anos de história para virar um estudo arqueológico, uma adivinhação de intenções.
Descoberta a caverna, as paredes de pedra passaram a compor um salão fundo e escuro com paredes de pedra, temperatura específica, teto baixo. Mas, o que fazer com esse imenso buraco?, perguntou a mulher sem entender toda aquela animação. É mais uma curiosidade do que uma utilidade!
De fato, passado o primeiro momento de descoberta, só a filha adolescente, que até então ocupara um quarto arejado e amplo, filha única com adoração pelo rosa, permanceu com interesse pelo espaço.
Aos poucos, começou a levar suas coisas, passar horas desenhando e lendo no subsolo até que se mudou para lá. No início, deixa estar, era mais uma mania, uma vontade de escandalizar, junto com um bocado de introspecção, que era notável já então.

E as amigas, no início meio curiosas pela opção começaram a rarear, se afastar até que não tinham mais nenhuma ligação. Passando a dormir cada vez mais de dia, concluiu o ensino médio estudando à noite, mudou o rosa pelo preto e dizem na vizinhança que sai a vagar de madrugada, em um misto de sonambulismo e vampirismo.





sábado, 29 de setembro de 2012

Pintando

Foram vê-lo juntos e gostaram na hora. O apartamento era quase exatamente o que eles queriam (porque nunca é exatamente). Acertados os trâmites burocráticos, fitaram estáticos aquele que seria o seu lar, futuro não muito longínquo. Entre planos e sonhos, teceram roteiros e devaneios.
Casamento marcado, todos da família informados, trataram de estrear o apartamento ainda não mobiliado. Com direito a champanhe e luz de velas (até porque a luz estava desligada), combinaram detalhes, definiram lugares, trocaram olhares, etcetera e etcetera.
Como o apartamento precisava de uma pequena reforma no banheiro (por causa de um vazamento “eterno enquanto dura”), trataram de procurar o encanador e acertar os detalhes com o proprietário do apartamento de cima que estava, literalmente, careca de saber do assunto. E como essas coisas levam um tempo, aproveitaram para ir comprando os móveis e eletrodomésticos mais básicos.
Foi quando se depararam na escolha da cor da pintura. Conversaram, pensaram, reavaliaram e não conseguiam chegar a um acordo. Ele era da opinião fechada, unitária e clara do branco, até porque o apartamento não era grande. Mas ela, por sua vez, queria poder distribuir as cores pelos cômodos, associando as funções aos estados de espírito apropriados, tendo lido muito sobre as cores e as emoções que elas despertam, sabendo que o ambiente pode ser totalmente modificado pelas cores.
Ele acabou cedendo, concordando em verem juntos alguns testes distribuídos por ela pelas paredes. Na verdade, ia ser bastante rápido: ela compraria as tintas, o pintor faria o teste, ele daria uma olhada, eles chegariam a uma conclusão e o pintor faria o seu trabalho rapidamente, até porque era um excelente profissional. A fórmula podia ser simples, mas na prática...
A primeira vez que ela foi à loja de tintas, ficou perdida, perplexa, extasiada. Não entendia as diferenças de uso das tintas látex, óleo, acrílica, os rolos e seus vários tipos, os pincéis dos mais variados tamanhos! Deu meia volta, e foi buscar o pintor. Ele explicou a aplicação dos diferentes tipos de tinta, calculou a quantidade de cada e até explicou os efeitos gerais das cores, com as mais claras ampliando os espaços e as mais escuras diminuindo. Mas também tinha a opção de fazer apenas uma parede de cor contrastante, o que podia ficar bem, bonito. Ela não quiz nem ouvir essa possibilidade. Já eram tantas as cores e a dificuldade de combinação pensando em um cômodo de cada cor!
Chegou ao apartamento exultante, o pintor aprovara as suas escolhas e apenas sugerira que ela clareasse um pouco mais o amarelo. Cada cor fora aplicada nas paredes corretas quando o noivo chegou e, horrorizado, constatou que ela não estava brincando quanto à sua decisão . Brigaram feio, o pintor saiu de fininho, ela ficou chorando sozinha, encontrando felicidade e conforto nas cores alegres e suaves que escolhera. Casamento desfeito, depois da pintura encontrou o amor justamente no pintor.

sábado, 22 de setembro de 2012

Textura

Tinha uma noção bem precisa do que queria. Algo forte, impactante. Mas, ao mesmo tempo, com um apelo conhecido. Sim, queria um estranhamento familiar, provocar uma reação quase orgânica, logo na entrada, na parede oposta à porta.

Primeiro, pensou em uma cor contrastante e vasculhou catálogos de tintas, ávida por encontrar aquela tonalidade exata que serviria ao seu propósito. Convencida de que precisava de algo mais visceral, encantou-se pela idéia de uma textura que exprimisse suas intenções.

E aí foi buscar nas suas emoções o que estava tentando exprimir. Fechou os olhos, respirou fundo e a imagem que lhe veio à mente foi a terra. O chão molhado cheirando à chuva fresca e o desenho do barro molhado. Terracota com aspecto rústico e envelhecido foi a sugestão. Feito o teste no canto da parede, ela percebeu a obviedade do tema, a interpretação do apego às raízes.

Queria algo mais audacioso, que manifestasse um movimento constante, uma mutação. E a imagem que surgiu foi a do mar e suas ondas incessantes. Uma tonalidade entre o verde e o azul, um trabalho mais dirigido para formar o desenho de altos e baixos e alí estava o seu cantinho do mar, opondo-se ao barro molhado no outro extremo da parede. Mas ficou tão frio, calmo, um estado de paz e harmonia que não pode ser permanente sem suscitar uma total imobilidade.

Sim! Queria criatividade, audaciosamente indo onde outros não tinham estado. Um foco brilhante e indagador, o calor das cores fortes. E o seu querido sol surgiu resplandecente, provocando e aquecendo, convidando e repelindo. No meio da parede em questão foi feita uma massa homogênea, de um amarelo radiante, com um movimento circular que a tudo parecia englobar. Colocou seus óculos escuros e foi fazer o jantar.

Enquanto a água fervia, observava o movimento do fio de azeite, tão sereno. Cansada das tentativas frustradas, já cogitava o branco para apaziguar o espírito da parede e o seu próprio. Voltou à sala e contemplou as três tentativas. Colocou uma música e lembrou-se do tempo do spagheti. Na cozinha, misturou o molho com cuidado, feliz por antever sua fome saciada por algo tão simples, prosaico, uma invenção que remetia à sua infância de avós italianos.

Serviu um cálice de vinho e sentou-se com o prato de macarrão ao sugo bem defronte da parede, foco de sua atual preocupação. Esvaziando sua mente de qualquer sugestão prévia, perguntou-se: o que quero agora? E a única resposta que lhe veio foi o vermelho do vinho, o vermelho do macarrão. A sede parecia secar-lhe a garganta diante da resposta imediata. Tomou o vinho de um gole e ficou a contemplar o prato à sua frente. O olhar ia do prato à parede, da parede ao prato.

Até hoje, o foco central da casa é aquela pequena parede vermelha com movimentos aleatórios manifestados naquela textura única, que parece saltar aos olhos, gulosamente convidando, instintivamente repelindo. Momento único de inspiração da dona da casa!

domingo, 16 de setembro de 2012

Móveis antigos

Gosto de reciclar móveis, repensar suas utilidades, extrapolar suas funções. No tempo, eles ganham novos ares, às vezes novas cores, invariavelmente novos estofados. E nesse hábito que está comigo há tempos, também vou recolhendo pedaços de histórias alheias, restos do passado, fantasmas aos montes. Na cadeira de balanço, senta-se uma jovem que lá se balança todas as manhãs. 

Apesar do pé da máquina de costura hoje ser uma mesinha, ele de vez em quando é vigorosamente acionado para dar conta do trabalho da atarefada costureira loira e risonha. No sofá de couro, senta-se lendo um homem grisalho de olhar triste, fumando o seu cachimbo em tempos que fumar dentro de casa não era o ato de transgressão que hoje tomou conta dos vigiadores da paz.
Quanto tempo até o gato fantasma que dorme sonolento em cima da poltrona perceber na cozinha, ao lado do guarda comida, o cachorro rabugento que também não tem nenhuma presença material?
Quando saio para o trabalho, fecho a porta sabendo que todos estarão lá, fazendo-se companhia, aguardando a minha volta, não pela comida, já que isso eles não fazem, mas pela companhia que traz notícias frescas, um ouvido atento e a atenção para que possam povoar a minha vida.
Aos amigos, informo sempre que não me sinto só vivendo sozinha, antes de sinto muito bem acompanhada pelos meus livros, minhas coisas, minhas memórias. Nesse momento, oculto de todos essa população secreta, que às vezes sorri quando esse tipo de conversa se dá na minha própria sala.
E temos esse trato: respeitar sempre a presença de estranhos e mesmo a minha própria intimidade. Fantasmas no banheiro, nem pensar! Mas de fato, quando olho ao redor, sinto a personalidade dos móveis encher o ar, soltando a sua fumaça de passado e elegância, trazendo um cheiro bom de lustra móveis.
A madeira de antigamente é diferente e se faz sempre presente, nos rangidos que já não sei se são os móveis ou os fantasmas, para os quais ofereço chá mesmo sabendo que não vão tomar.
Casa é uma palavra cheia de ar, que dá fôlego para um dia difícil, que aquece os dias frios, que aconchega à noite. É um exercício de autoria, onde nos permitimos fazer o que o coração (ou o bolso) manda.
Se antigamente a casa era só um lugar para morar e os móveis quase essenciais, hoje a ampla possibilidade de cores e combinações faz com que possamos dele nos apropriar.
Decisões iniciais tomadas, as pessoas têm a liberdade de sair fazendo, usando móveis planejados, copiando revistas, contratando profissionais que ajudam na decoração ou simplesmente apelando para o coração e ir combinando móveis e fantasmas.

sábado, 15 de setembro de 2012

Andaime

Confie em mim, disse o homem baixo, e esticou a mão. O outro, semi dependurado na madeira improvisada como andaime, automaticamente esticou a mão de volta.

Mas aí o primeiro parou no meio do caminho, como se pensando se confiar seria uma boa opção. Desequilibrado, olhava alternadamente o vazio abaixo, na altura do segundo andar da obra, analisando a situação.

A situação toda era precária, uma reforma que já durava mais do que o pretendido, relações de trabalho conflituosas, pedreiros que chegavam e partiam, um empreiteiro estressado e os donos da casa a beira de um ataque de nervos.

E na ponta do andaime... um pedreiro dependurado, dependendo da ajuda do mesmo empreiteiro que ele conhecia pouco mas no qual não confiava. Luta de classes? Lembranças de situações vividas recentemente, promessas tantas não cumpridas, segredos e reviravoltas no ambiente de trabalho.

Horários extensos sem pagamento de hora extra, falta de equipamento de proteção, uma sensação de não ter nenhuma fé no dia seguinte. Todas as madrugadas, na condução, pensando que talvez chegasse no lugar da obra e fosse dispensado, arbitrariamente, com sucessos e fracassos dependendo mais do humor do que da competência.

Não só de material e prazos é feita uma obra. Ela é feita de gente e essa gente vai e vem no seu anonimato. E ele ouvia a voz do outro ficando mais nervosa, mais distante a medida em que o andaime se afastava da construção. Se tivesse a instrução e a compreensão do panorama psicológico, diria que tinha problemas de confiança.

E na ânsia de salvar o pedreiro, parte de sua equipe reduzida e sempre sobrecarregada, o outro se debruça perigosamente. Por um momento ambos sabem que é o último instante antes da queda. O pedreiro agarra a mão estendida, o empreiteiro por pouco não vai junto mas se equilibra e conseguem ambos respirar aliviados ao caírem sentados no chão dentro da casa.

Momentos de silêncio antecedem o último momento desse relacionamento: o pedreiro agradece e pede demissão.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O homem que fazia chover

Sabia há vários meses que precisava tomar uma providência. Acompanhava angustiado as previsões do tempo, dizendo a si mesmo que ainda faltavam alguns meses para a estação das chuvas. Por via das dúvidas, e para não ficar muito nervoso, convencia-se de que não acreditava nessas coisas: previsões... E ia trabalhar fingindo não se preocupar.

Pegos de surpresa por uma chuva mais forte fora de época, passavam todos da casa por uma obrigatória faxina-enxuga-enxuga. Mas até que tinha seu lado bom, as goteiras generalizadas tinham provocado uma total redecoração da casa, agitando a imobilidade de vários anos. Agora, estofados amontoavam-se em um canto para abrir amplos espaços de circulação...

Mas era só decidir tomar uma atitude, marcar com o dito cujo telhadista e pronto: chovia. Teve até o dia que o magrelo chegou, subiu no telhado, começou a destelhar e, de repente, o maior estrondo! O céu azul transformou-se em chumbo em questões de segundos, grossas gotas caíram sem piedade, formando um temporal que durou várias horas e alagou muitas ruas do bairro.

Depois de várias tentativas frustradas, com lonas coloridas espalhadas sobre o telhado para funcionar como uma garantia extra, houve um momento solene de reunião familiar. Todos puderam votar entre contratar um desconhecido ou continuar tentando driblar a chuva. O tal do magro ganhou por unanimidade, fruto direto de reformas desastrosas feitas por desconhecidos sem-referência na mesma residência. Faço aqui um parênteses para explicar que “magro” não é uma opção politicamente incorreta que denote preconceito, aliás é assim mesmo que ele é conhecido, Magro do Telhado.

Tomada a decisão, marcaram vários dias e sempre a mesma coisa: chovia. Começaram então a usar expedientes escusos como marcar um dia, querendo dizer o anterior. Assim, se combinassem Quinta, queria dizer Quarta. Ele aparecia no dia anterior ao “combinado” e logo as nuvens cobriam o céu. Tentaram mudar o foco da preocupação, achando que o problema não era o dia combinado mas o caminho que o Magro percorria até a casa, dando tempo para o tempo mudar. Como se o tempo tomasse essa decisão de propósito, vigiando e punindo aquela família particular. Afinal, o homem tinha a mesma profissão há anos e nunca tivera este problema com outros clientes. É claro que às vezes acontecia, e certamente complicava na época das chuvas, mas essa verdadeira perseguição!

Com a previsão do tempo a favor, o Magro fingiu ir para um outro cliente bem perto da casa em questão e, lá chegando, certificou-se do céu com poucas nuvens brancas, nada ameaçadoras. Saiu ele pela porta dos fundos, correu até o endereço amaldiçoado e conseguiu trabalhar exatamente quarenta minutos antes do maior temporal desabar sobre a cidade. Agora, todos os envolvidos estavam totalmente convencidos de que só podia ser um pesadelo. Chegaram a pensar em subornar os boletins de previsão de tempo, procurar ajuda espiritual, fazer terapia, e outras saídas mais radicais que não valem a pena ser mencionadas. Frustrado, o dono da casa dispensou o Magro que, visivelmente abatido, virou motorista de táxi para tirar algum proveito dos dias chuvosos. Quanto ao problema das goteiras, elas foram resolvidas por outro profissional qualificado, que enfrentou uns dias de chuva, outros de sol.

domingo, 9 de setembro de 2012

Piscina

O terreno bem cabe uma piscina, pensou ela em uma noite quente de verão. Embora não fosse uma fã desse tipo de água parada, a ideia foi chegando devagar, povoando o desejo no abafamento da noite.

Sussurou insistente no verão seguinte, quando visitou uma amiga que acabara de construir a piscina. No churrasco para a inauguração da obra, saboreou a água fresca, ausente do excesso de barulho ou da briga que o casal anfitrião estava tendo no momento da festa.

Passou o ano tentando falar sobre o assunto, procurando todas as oportunidades possíveis de abordar o tema mas não encontrou eco no marido que manifestou a opinião de ser um estorvo sem fim ter uma piscina em casa.

Sem desistir, percorreu sites de empresas especializadas, viu a diferença entre os diversos acabamentos, escolheu a que melhor se adaptava ao seu terreno e pediu um orçamento. Aliás, não apenas um pois passara a se corresponder com essas empresas, pedindo orçamento e projeto como uma espécie de impulso incontrolável.

No verão seguinte, pensou em observar mais de perto a obra da amiga que construíra a piscina no ano anterior, perguntando sobre a sua experiência e procurando conselhos. Entretanto, a amiga não queria em absoluto falar sobre isso, tendo vendido a casa durante um processo de separação nem um pouco amistosa.

Lembrou de uma prima que estava iniciando a empreitada em outra cidade, não muito distante, e foi visitá-la. Descobriu que de fato o ideal é começar a obra no inverno, não só por causa da chuva de verão mas para não ter o transtorno de ver algo sendo feito bem durante o verão e ficar com um gostinho de “anda logo”, o que pode causar uma certa ansiedade e muitas discussões, como presenciou entre a prima e o marido desta.

Decidida, conversou com o marido a respeito, que continuava sendo contra a ideia, e estipularam que ela iria tocar todo o projeto e ele não se oporia. E assim foi, escolheu o melhor projeto, acompanhou de perto a instalação, cuidou dos detalhes do paisagismo, estudou a manutenção, encomendou até uma cascata com luz colorida e viu surgir do chão o seu sonho, junto com um divórcio pré anunciado que parece acompanhar a construção de piscinas em algumas cidades brasileiras, um fenômeno conhecido mas muito pouco estudado.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Reforma, decoração e outras formas de desconstrução

Casa, apartamento, loft, condomínio vertical ou um puxadinho no terreno dos pais?

Tudo é possível em tempos nos quais um sem número de revistas e sites dá dicas de decoração, design de interiores e um monte de outras palavras que não tinham nenhum significado há pouco tempo atrás.

E nessa ampla variedade de opções, as pessoas tentam montar o seu espaço, apelam para o faça você mesmo, chamam o pedreiro de confiança, contratam uma empresa especializada ou simplesmente constroem castelos no ar, armam planos mirabolantes que nunca saem do papel.

Como gosto do tema, brinco com palavras e observo sempre os arredores, nada como um exercício do absurdo, com pitadas de realidade.

Quem conhece a minha rua conhece o castelinho misterioso, envolto em fofocas e com múltiplas possibilidades de desconstrução. É um primeiro exercício.. ou obra!

Castelo

Todos no bairro conhecem o castelinho, um sonho que desafia os racionais e abre passagem para um tipo de pessoa que persegue o seu sonho a qualquer preço. Pode-se chamar de romântico, mas muitos outros partem logo para a alcunha de louco.

O fato é que o lar de uma pessoa sempre é o seu castelo e essa afirmação foi levada ao extremo por essa pessoa (o romântico ou o louco, podem escolher).

A esquina no alto, a obra começada, a vizinhança foi aos poucos acompanhando o surgimento de uma forma arredondada ao lado da casa, forma que foi ficando nítida aos poucos, já que a reforma era levada a passos vagarosos.

As crianças foram as primeiras a perceber que tinha algo diferente naquela casa. As janelas compridas e estreitas, a torre subindo, as pedras na fachada. Os elementos compondo a cada passo a forma do castelo de contos de fadas.

Aquele mesmo, só que em tamanho reduzido, compacto. E o dono entrava e saía, compondo o cenário, com direito a fonte de pedra no pequeno pátio, grades de ferro trabalhadas garimpadas em demolições.

E o tempo passando, a torre se delineando no sol de verão, misteriosa na bruma da manhã, melancólica nos dias chuvosos. Progressos tão vagarosos que a surpresa inicial foi se apagando, dando lugar a uma constatação simples de existência.

“Passe o castelinho e entre à direita”, uma simples referência. “Você percebeu que é como um castelo na cidade”, dos novatos do bairro. “Como não percebi que a torre está quase terminada?”, dos que descrentes do final da obra que tinham parado de olhar. Mas ele tinha chegado lá. A torre estava pronta e estava na hora de subir e dar a primeira olhada lá de cima. Esperou os pedreiros irem embora, não queria plateia. Era o seu momento de glória.

Subiu as escadas saboreando cada construção da torre, abre a porta e encontra a degrau, impressionado como a pedra tinha abafado todo o ruído externo e ele não ouvia mais os carros passando na rua.

Parou no final da escada, abriu a porta do pequeno cômodo, segurou a respiração e andou em direção à janela. Lá de cima, viu a princesa prisioneira, e um duelo prestes a começar no pátio do castelo.