quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Explosão Criativa

Sabe aquelas atitudes totalmente desnecessárias, absolutamente inúteis, que você sabe não levar a lugar algum? Como as discussões que você começa sabendo, de antemão, que não podem resultar em nada de frutífero! Isso quando você, no fundo, também sabe que não existe nenhuma possibilidade de sequer manter sua posição por muito tempo... Esse ímpeto de tempestade, irracional e incontrolável, acomete muitas pessoas, nas mais variadas situações. O quê? Você nunca teve um ímpeto desses? Bem, então talvez esse estado de espírito seja peculiar de algumas pessoas específicas, entre elas, eu.

 Momento angustiante da proximidade da explosão, controle mantido ainda a duras penas, vem aquela frase de efeito devastador: Não precisa ficar tão nervosa. É aí que a coisa explode! Para não percorrer essa trilha, alguns recomendam terapia, outros lutas marciais e existem os que optem pela ioga. Pode-se enumerar ainda o uso de florais, aulas de artesanato, sair para andar ou apelar para calmantes. Eu, pessoalmente, recomendo um serviço doméstico... Não estou aqui prescrevendo lavar pratos, esfregar roupas ou mesmo cozinhar, penso em uma coisa mais criativa e radical: arrumar a casa. Mas arrumar no sentido mais literal, brutal, uma mudança no astral, uma reciclagem de móveis, pintura das paredes ou até mesmo uma pequena reforma.

Sim, canalizar toda a energia explosiva para algo criativo, útil e com grande potencial realizador. No final, além de poupar uma briga desgastante, você ainda vê o resultado positivo no seu lar ou no seu local de trabalho. O processo requer um certo treino mas não é tão difícil! Quando você sente o sangue subir, não perca a cabeça. Olhe em volta, respire fundo e descubra algo que você “precisa” mudar ao seu redor. É claro que um certo preparo anterior facilita muito o andamento da terapia: ler revistas de arquitetura e decoração, fazer cursos de técnicas diversas, acompanhar os lançamentos, visitar lojas e outras atividades correlatas. O melhor é que o campo é tão vasto que não há possibilidade de esgotamento! Só para enumerar algumas áreas, temos todo o campo dos acabamentos (pinturas, louças, pisos), da decoração (móveis, acessórios, cortinas, tecidos, quadros), dos detalhes (iluminação, paisagismo) e isto sem falar da arquitetura de interiores, com todas as possibilidades de mudança dos usos e distribuição dos espaços (facilitada pelo uso de paredes de gesso, estantes).

Entretanto, não posso dizer que seja uma saída fácil, livre de acidentes. Mas o nível de risco é bem mais controlável do que, por exemplo, o da briga decorrente da explosão. Dependendo do caso, uma discussão pode desde abalar relacionamentos até acabar com casamentos, empregos, amizades. No caso de intervenções criativas, por outro lado, é possível envolver-se de maneira mais contida e menos arriscada, como na troca do lugar dos móveis. Com o campo inesgotável de ideias, os recursos financeiros necessários podem ser negociados ou parcelados, facilitando o acesso ao processo criativo gerado a partir de um impasse emocional, contido a tempo de desviar a energia acumulada para algo aproveitável. O único ponto obscuro a ser quantificado seria o risco do remédio vir a se tornar mania, da mudança passar a compor um padrão, da reforma virar obsessão. Mas, como saber senão experimentando...

sábado, 3 de novembro de 2012

Telhado

Malditos demônios passeiam perdidos, vorazes, por sobre a minha cabeça. Nenhum barulho, nenhuma razão para desconfiar da sua presença... mas hoje sei que lá estão, ocultos no escuro e úmido espaço entre o forro e o telhado. Hibernam no inverno, vivem sua sofreguidão no verão, roubam a paz dos que acreditaram estar a salvo do seu poder destruidor. Arrasam, aniquilam, milímetro por milímetro, povoando meus pesadelos. Quem pode dormir sossegado sabendo-os tão perto, tão devastadores?
E o que dizer da falta de aviso, da surpresa mais autêntica de descobrir infestando-os a tal ponto que nenhum remédio ou benção pode destruí-los! A força da imaginação então preenche lacunas, amplifica o medo, e posso ouvi-los, agora sim, como um batalhão de famintos, transpondo impossíveis barreiras para chegar ao que interessa... suaves madeiras. E todas as qualidades são provadas, neste banquete sem igual, onde demonstram sua perícia de gourmet, recusando a amarga peroba e fartando-se de tudo o mais.
Em meio à devastação, passeiam técnicos e curiosos, tecendo suposições e teorias. Os moradores de apartamentos apontam as casas antigas como principal foco da contaminação da cidade. Os apreciadores de casas sabem, sem sombra de dúvida, que o entulho enterrado durante a construção dos prédios é um ninho perfeito. Muitos acusam as árvores de serem as principais vilãs. Os defensores do meio ambiente condenam a derrubada indiscriminada de árvores e a falta de equilíbrio ecológico. E por aí vai...
Na hora do aperto, apela-se para soluções antigas e modernas, descobre-se a fragilidade do homem e suas construções diante de um minúsculo inseto (ou seria um verme?). Deixando a biologia não estudada, entra-se no âmbito jurídico, na falta de cobertura do seguro, na ineficácia do combate das autoridades, na vistoria técnica que nada detectou... e aí você já dançou! Eles, os cupins, já comeram até se fartar e só resta ver o que dá para salvar. E o pior é que a paranoia fica para sempre: o medo de voltar a ser vítima desses malditos.
Para deter a demolição, retira-se o que está condenado, de estuque a caibros do telhado, examina-se armário, batente e rodapé, portas, janelas e o que mais der. Pensa em matá-los? Mais fácil intoxicar todos os outros moradores da casa do que conseguir eliminá-los. A palavra usada passa a ser controle, prevenção, nada mais do que a impossibilidade de total aniquilação. Então, convive-se com eles, vigiando seus avanços, retardando suas investidas, numa batalha de estratégia e lógica, digna de seres racionais. Chega-se a pensar que cupim pensa.. logo existe. Sim, existem aos montes... e muitos bem próximos, compartilhando a mesma residência!
Mas antes eles não estavam exatamente ali e ninguém ligava? Mas agora é diferente: foi vislumbrado todo o seu poder. Depois do primeiro contato, não há salvação. Percebe-se que beira a questão religiosa, abala ou reforça a fé, aproxima-nos da criação... somos todos filhos de Deus. Incômodo parentesco, desconfortável presença, onipresente ameaça... e dizem que eles, os cupins, proliferam pelo mundo! Assumida a dimensão global, não há vontade racional que segure o pânico. Socorro!

domingo, 28 de outubro de 2012

Reciclando

Todos da família concordavam: ele tomava muito refrigerante. Eram sempre garrafas de dois litros, um hábito nada saudável que só havia piorado nos últimos anos.
Ele era tão novo e, de novo, todos da família reclamavam. Mas ele não ligava, e colecionava as embalagens PET com orgulho pelo volume consumido. Até aí, apenas mais um conflito familiar, um problema de obesidade, maus hábitos alimentares e uma certas aderência à moda das embalagens gigantes.
Aos poucos, além da preocupação com a saúde, apareceu uma questão bastante prática: onde achar espaço para guardar todas aquelas embalagens vazias. Amontoando-se por todos os cantos, elas começavam realmente a incomodar.
E foi em um trabalho de escola que o sobrinho mais velho encontrou a solução. Fez alguns itens com garrafas pet recicladas e chegou em casa com a novidade. No início, todos acharam engraçado mas não perceberam que poderia ser uma saída sustentável a longo prazo, sem querer brincar com o trocadilho.

Mesmo assim, começaram a brincar com a ideia, fazer alguns itens como bichinhos e chapéus, que o próprio sobrinho vendia nos dias da feira. Depois, com o acúmulo das garrafas começando de fato a atrapalhar a circulação interna, iniciaram projetos para usar mais garrafas, como poltronas e mesinhas, itens de decoração que não só eram vendidos como passaram a substituir os móveis velhos pelas criações coletivas.

E o próprio consumidor desvairado, aquele que havia criado essa necessidade, passou a se interessar pelo projeto familiar, montar os móveis, levá-los para vender, andando de um lado para o outro, esquecendo a sua compulsão por refrierantes. Pensando em alternativas mais radicais, montou divisórias para ambientes e toda a sorte de itens que consumiram o estoque de garrafas PET.

Negócio em expansão, começaram a comprar as garrafas, fizeram uma parceria com uma ONG, entraram no ramo da decoração sem lembrar mais, àquela altura, o fato gerador bizarro que tinha sido o fato propulsor de um negócio tão lucrativo e criativo.
 

sábado, 27 de outubro de 2012

Implosão

Enquanto tudo desmorona ao meu redor, olho fotos antigas na expectativa de encontrar algum sentido em tudo isto. Pessoas sozinhas e agrupamentos, paisagens que certamente já mudaram, fragmentos dentro de uma caixa velha de sapatos. Ignoro o presente enquanto emociono-me com o passado até descobrir que as fotos não são minhas. Como são semelhantes as lembranças de todos! Pessoas sozinhas e agrupamentos, paisagens que não existem mais... quantas horas passei com lembranças que não eram minhas?
Estado sombrio, de pensamentos confusos, responsabilidades questionadas, situação jurídica complicada. Embolam-se etapas de projeto, construção, vistoria, manutenção, na tentativa de achar o culpado pelo desastre. É quando aparecem as brechas, não as trincas concretas, mas as inúmeras falhas que acumulam-se em tantos empreendimentos imobiliários.
E as pessoas, que dormiam pensando ter resolvida a questão de um teto sobre suas cabeças, subitamente acordam para uma realidade onde poucos são os parâmetros palpáveis para avaliar a situação de uma estrutura supostamente segura. Carimbos e assinaturas, registros e escrituras, vistorias e relatórios, papéis sem sentido num mundo de poeira e devastação.
E então, aparecem vilões de última hora, e a sociedade elege a caça às bruxas do momento. Para acalmar a multidão enraivecida, questionam-se leis, instauram-se processos, medidas que cairão no esquecimento com o tempo. O mesmo tempo que não vai apagar o desastre da minha memória. O tempo que provavelmente não verá punidos os culpados. O tempo necessário para produzir novas tragédias, exploradas nos noticiários, acompanhadas com lágrimas nos olhos pelos espectadores.
Com tantas catástrofes naturais, guerras absurdas, total falta de infra-estrutura para populações carentes, sinto-me estranhamente injusta e injustiçada, enviada à categoria dos sem-teto por uma mera ironia do destino. Destino ou desatino? Total loucura de um todo que deveria funcionar mas mostra falhas aparentes, que poderiam até ter sido vislumbradas, caso estivesse eu mais bem informada ou simplesmente mais atenta.
Mas são tantas as pessoas que compram apartamentos sem precisar experimentar grandes problemas! Será que elas investigam a construtora, visitam lançamentos anteriores, acompanham o andamento da obra? Não quero parar de acreditar na humanidade: é claro que existem bons profissionais em todas as áreas. E onde eles estavam quando poderiam ter previsto a tragédia?
Cai com estrondo o que restava do prédio. Inútil contabilizar as perdas, melhor pensar no futuro distante, na casa ideal, no projeto de decoração. Abstrair é não pensar na própria limitação de solucionar problemas. Varinha mágica, pudesse você funcionar, reconstruiria vidas e moradias, a partir dos escombros que ainda estão envoltos na fumaça. Quando a poeira baixar, quando o carnaval chegar, vou sair para comemorar estar viva. E começar a batalhar por outra casa, outras fotos, outros ares.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Consumo e decoração

Ela acordou e olhou ao redor, os longos cabelos emoldurados pela cama dourada com detalhes cor de rosa. Um suspiro alto e o sol entrando pelas frestas da janela. Olhou em volta e se sentiu motivada a dançar, praticar um pouco do seu passatempo preferido, que poderia até ser uma profissão se não fosse o seu compromisso fiel com a de modelo.
Pegou o telefone, discou um ramal interno e deu algumas instruções, saltou da cama com um sorriso nos lábios e se dirigiu ao banheiro. Trocou de roupa e voltou ao quarto, que havia se transformado, não tinha mais os móveis, apenas um espelho grande no qual ela se auto admirou enquanto dançava. Sem dúvida, uma mudança de estrutura totalmente revolucionária, de alta tecnologia, que permitiu uma mudança tão rápida quanto a sua necessidade de adaptação.
Voltou ao banheiro para um prolongado banho de espumas na banheira rosa, enquanto mais uma vez o quarto/sala de dança se transformava em um imenso closet, com as roupas aparecendo penduradas em cabides, chapéus e todo o tipo de acessórios espalhados por prateleiras de várias cores.
O que fazer quando o sonho de consumo é o único referencial e cada parede se abre a um simples toque, mostrando mais e mais roupas? E quando o desejo é tão poderoso que o planejamento já tem as possibilidades de humor para trocar todo um cômodo em poucos minutos?
Nada como a vida mortal de idealizar uma mudança, passar para o projeto, o planejamento e a execução para se chegar a um resultado após uma reforma ou, às vezes, apenas mudanças na decoração.
Mas para ela nada disso importa, envolta em suas roupas espalhafatosas, desce rápida a escada, passsa pela piscina, volta à sala para pegar a bolsa e dedilhar o piano, olha em volta admirando a própria casa e... muda de ideia. Tira a roupa para um mergulho enquanto os cachorros ficam ao lado da piscina dormindo.
Ao sair da piscina e voltar à sala, não precisa subir ao quarto! As roupas apareceram na sala, suprindo os seus desejos e suas necessidades mais imediatas, em uma demonstração de decoração utilitária e consumista, a mais nova invenção do "closet em qualquer lugar"! Suspira alto, veste outra roupa, pega de novo a bolsa e retoma o caminho até a garagem onde o carro conversível a espera.
A porta da garagem se abre, é claro que automaticamente, bem a tempo dela sair atrasada, sempre pensando na sua imagem, na importância da aparência para a sua profissão de Barbie, a boneca dos sonhos, a casa de plástico que é o desejo de consumo das meninas e a impossibilidade prática da realização desse desejo na vida real, nas reformas e decorações, na vida prática de casas que absolutamente não se prestam a esse papel.

domingo, 7 de outubro de 2012

Labirinto

A saída é achar o telefone e pedir ajuda à polícia.”, gritou uma voz de mulher vinda de um dos quartos. “Mas onde fica o telefone? ”, perguntou um homem perdido entre um banheiro com três portas e o que parecia ser um closet ainda sem prateleiras (ou seria um outro banheiro sem as louças sanitárias?). Em algum ponto da casa, latia um cachorro histérico, já ligeiramente rouco.
Os homens da mudança, por sua vez, tentavam decidir onde colocar a mobília sem a indicação dos donos da casa, que tinham se perdido pelos meandros da construção. Amedrontados, tratavam de permanecer o mais próximo possível da porta de entrada, amontoando caixas e empilhando cadeiras para ganhar espaço. Economizar espaço? Em uma casa de quinhentos metros quadrados? Mas eles não queriam se arriscar...
Um dos funcionários da empresa de mudança precisava desesperadamente ir ao banheiro e ousou abrir algumas portas, sem perder de vista os colegas. Encontrou a cozinha, um cômodo com prateleiras até o teto (provavelmente um escritório) e uma outra sala, com uma grande porta de vidro dando para o jardim. Os três ambientes tinham pelo menos duas outras portas, que podiam ser avistadas mas estavam totalmente fechadas, sem deixar sequer entrever o seu interior. Para piorar as coisas, as dobradiças eram do tipo vai-e-volta, não permitindo aventurar-se e manter o contato visual ao mesmo tempo.
Mas, como as necessidades da natureza não têm lá muita paciência, o homem acabou pedindo a um outro que mantivesse a porta da sala grande aberta enquanto ele tentava achar o que procurava. Mesmo com má vontade, porque atrasava o serviço e os móveis eram muitos, o outro aceitou o encargo. A primeira porta foi aberta mas mostrou apenas mais um lote de portas, distribuídas em um corredor largo e bem iluminado, com a luz do sol entrando através de uma clarabóia. Andando no sentido horário, o funcionário respirou fundo e girou a maçaneta da segunda porta. Dentro, encontrou uma mulher dormindo, que se identificou como a faxineira, chorou de emoção por ser resgatada e contou que estava tentando sair da casa desde o dia anterior. Os dois homens se entreolharam, indicaram a saída que estava exatamente a duas portas da infeliz, e tentaram a terceira porta que, finalmente, abriu-se para o paraíso, quer dizer, o banheiro.
A esta altura, o dono da casa tinha conseguido achar um telefone mas ficou na dúvida do número para onde deveria discar. Chamar a polícia parecia um pouco melodramático. O corpo de bombeiros soava mais simpático mas excessivamente barulhento. Foi quando o seu olhar se iluminou: tinha que chamar o arquiteto! Começou por ligar para o próprio escritório, onde a secretária deu-lhe o número desejado mas, como não tinha onde anotar, pediu que ela fizesse o contato e explicasse a situação. Tudo se resolveria com uma planta da casa, pensou aliviado. Foi quando percebeu que não havia desligado o telefone, tal o estado de nervosismo. Do aparelho, saía a voz da secretária que, atônita, fazia a pergunta que ele mais detestaria ouvir no momento: “Como? O senhor está perdido na sua própria casa?”

sábado, 6 de outubro de 2012

Telefone Hiperativo

No início, era um telefone como qualquer outro. Funcionava a contento, quebrava ocasionalmente e, basicamente, servia bem aos seus donos. E apesar de ser chamado simplesmente “o telefone”, é óbvio que podia ser subdividido em linha telefônica e aparelho, embora na época da instalação fossem duas coisas praticamente inseparáveis. Tanto, que o aparelho vinha junto, sendo de propriedade da operadora que, gentilmente, alugava o mesmo para que as pessoas pudessem, de fato, usar a linha. Por isso, até hoje algumas pessoas não conseguem entender o conceito, cuidando zelosamente de aparelhos ultrapassados por medo de perder “o telefone”, o que significaria, em muitos casos, perder o contato com o mundo exterior.

E naquela época nem todos tinham telefone, o que significava ser o centro da vizinhança, com a oferta de um meio de fazer chamadas sempre muito curtas, apenas para informar fatos urgentes como doença, nascimentos e outros. E o telefone, bem como os donos da casa, era sempre muito solícito, raramente dando defeito nessas ligações, o que também era um fato comum com as linhas que já então povoavam de fio os postes e a vida das pessoas.
Bem, depois passou por mudanças, viu ser acrescido de extensões, passando posteriormente por mudança de prefixo. E como fora instalado em um apartamento espaçoso e próprio, nunca passou por mudança de endereço. Até que um dia, toda a central a qual pertencia, seguindo os fios dos postes que parecem nunca ter fim, foi amplamente remodelada, atualizada. Mudanças de máquinas e, mais uma vez, de prefixo, testes e mais testes. Neste período, ocorreram problemas previsíveis e contornáveis, compartilhados por outros telefones da vizinhança. Foi quando, finalmente, o aparelho verde bandeira foi devolvido à companhia por absoluta incompatibilidade com a modernidade.
Foi aí que as coisas começaram a mudar. No início, algumas ligações não foram completadas, o que motivou a chamada do técnico, que diagnosticou problema interno, que fez com que o dono da casa chamasse o zelador. O zelador, um quebra-galho de competência inquestionável, investigou o problema e descobriu que as únicas ligações não completadas eram dirigidas ao namorado da filha do dono da casa! Mas, como ele era mesmo claramente um cafajeste (palavras da mãe da moça), o defeito foi relevado, o namoro acabou e tudo ficou calmo por uns tempos.
Os fatos estranhos recomeçaram durante a copa do mundo, quando acabou a luz e todos, desesperados, tentavam achar um lugar para ver o jogo do Brasil, que começaria dali a minutos. Correram ao telefone, ligaram para vários amigos e parentes e sempre dava ocupado ou ninguém atendia. Na hora do jogo, o filho mais velho, quase chorando, pegou o fone e ouviu, estupefacto, o hino do Brasil! Ouviram o primeiro tempo pelo telefone e aprenderam que, apesar da praticidade da eletricidade, é sempre bom ter um rádio de pilha de reserva. No dia, acharam engraçada a coincidência mas não deram atenção maior ao fato.
Só que as ocorrências passaram a ser mais explícitas, levando os mais crédulos a acreditar que, de fato, o telefone estava interagindo com os donos da casa. Em dias de previsão de fortes chuvas, ouvia-se a previsão no telefone. Todos os aniversariantes eram saudados com uma gravação de Parabéns a Você no dia certo. O telefone tocava quando o despertador falhava, mesmo não tendo sido programado. Personas não-gratas tinham suas ligações simplesmente cortadas pelo meio da conversa, quando conseguiam ligar... E por aí vai: o telefone avisou sobre um vazamento de gás, ligou para a polícia na ocasião de um assalto ao prédio, começou a dar receitas para variar o cardápio, oferecer sugestões para boas aplicações na bolsa, dar a temperatura, sugerir combinações de roupa...


domingo, 30 de setembro de 2012

Reforma

Quando você voltar, tudo vai estar diferente. Vai ser uma surpresa especial ver a casa toda arrumada, reformada, aqueles pequenos detalhes que sempre sonhamos, construídos em pensamento mas não em realidade. Da idéia à concretização, quantos anos... desastrosas tentativas. Lembra daquele pedreiro que entupiu todos os canos? E o eletricista que quase morreu eletrocutado? À distância, parecem pequenas crônicas engraçadas. Mas na hora... o caos da reforma! A casa literalmente aos pedaços e o dinheiro acabando.
Mas agora tudo vai ser diferente. Desta vez, fiz tudo certo. Projeto completo, orçamento detalhado, profissionais contratados, pesquisa de mercado.
Trabalhei sem parar, juntei o dinheiro, com perseverança observando, até chegar o momento.
Tive alguns contratempos com os profissionais que passaram por um processo seletivo minucioso. No decorrer do tempo de maturação do projeto, alguns desistiram ou sumiram, houve um caso de um pedreiro que se aposentou e um eletricista que morreu elotrocutado (sinal que talvez não fosse realmente um bom profissional e que possa ter havido algum item que eu não tenha avaliado corretamente).
Materiais foi um caso à parte, pois tive que ter cuidado extremo com prazo de validade para não ocasionar desperdício. E esses materiais duram tão pouco! Quase não pude comprar com a antecedência que queria os acabamentos, tendo que me concentrar no material pesado e básico. Com isso, a casa virou um depósito por um tempo. Mas é preciso perseguir o sonho, não é mesmo?
Um pouco de pó e caos não podem ser um empecilho tão poderoso a ponto de interromper o nosso sonho, o projeto desenhado, visto e revisto no decorrer das noites, dos fins de semana sonhando juntos.
Agora nada disso importa, são lembranças carinhosas de dificuldades ultrapassadas. Estou encarando as etapas finais, as últimas decisões, pagando prestações que sobraram, retirando entulho (nossa, quanto entulho sai de uma obra como essa!).
E a casa está ficando linda! A cor perfeita, os detalhes impecáveis, a qualidade de tudo foi um cuidado que sempre tive e que me extremei dessa vez. Também tive cuidado para não estragar os móveis e aproveitei o marceneiro que chamei para alguns pequenos detalhes e pedi para dar uma reformada no que estava em pior estado.
E o estofado... ficou tão bonito... porque a estrutura estava boa, só tive que pedir para dar uma reforçada no enchimento e tudo ficou perfeito. Acho que ainda essa semana eu acabo os últimos detalhes, consigo fazer a faxina completa e aí... o que faço depois?
Há quanto tempo você se foi? Como faço para entrar em contato? Será que o seu cabelo ficou branco como o meu? Será que você ainda gosta de azul? Ufa! Isso eu posso resolver. Se você não gostar, posso pintar tudo outra vez!

Caverna

Comprou a casa sabendo que precisava de uma reforma, casa antiga, bem conservada, mas com aquele ar de passado engarrafado. Enfim, levou um tempo pensando nos seus desejos, nas necessidades da família.
Aprovado o projeto, decidiu por uma ampliação na parte de baixo da casa, com terreno em declive e um péssimo aproveitamento dessa área, que formaria um bonito jardim com área de lazer. Para montar o salão e a churrasqueira, precisou fazer uma nova coluna e eis que apareceu um buraco!
Por baixo da casa, ocupando o vão entre o declive do terreno e a estrutura de sustentação, o espaço havia sido usado para armazenar o entulho e simplesmente fechado por uma parede fina. Com a ideia de ampliar o salão já incluído no projeto, os operários foram cavando, retirando o entulho acumulado, até encontrar a rocha da encosta. Nada como uma casa sem planta e com anos de história para virar um estudo arqueológico, uma adivinhação de intenções.
Descoberta a caverna, as paredes de pedra passaram a compor um salão fundo e escuro com paredes de pedra, temperatura específica, teto baixo. Mas, o que fazer com esse imenso buraco?, perguntou a mulher sem entender toda aquela animação. É mais uma curiosidade do que uma utilidade!
De fato, passado o primeiro momento de descoberta, só a filha adolescente, que até então ocupara um quarto arejado e amplo, filha única com adoração pelo rosa, permanceu com interesse pelo espaço.
Aos poucos, começou a levar suas coisas, passar horas desenhando e lendo no subsolo até que se mudou para lá. No início, deixa estar, era mais uma mania, uma vontade de escandalizar, junto com um bocado de introspecção, que era notável já então.

E as amigas, no início meio curiosas pela opção começaram a rarear, se afastar até que não tinham mais nenhuma ligação. Passando a dormir cada vez mais de dia, concluiu o ensino médio estudando à noite, mudou o rosa pelo preto e dizem na vizinhança que sai a vagar de madrugada, em um misto de sonambulismo e vampirismo.





sábado, 29 de setembro de 2012

Pintando

Foram vê-lo juntos e gostaram na hora. O apartamento era quase exatamente o que eles queriam (porque nunca é exatamente). Acertados os trâmites burocráticos, fitaram estáticos aquele que seria o seu lar, futuro não muito longínquo. Entre planos e sonhos, teceram roteiros e devaneios.
Casamento marcado, todos da família informados, trataram de estrear o apartamento ainda não mobiliado. Com direito a champanhe e luz de velas (até porque a luz estava desligada), combinaram detalhes, definiram lugares, trocaram olhares, etcetera e etcetera.
Como o apartamento precisava de uma pequena reforma no banheiro (por causa de um vazamento “eterno enquanto dura”), trataram de procurar o encanador e acertar os detalhes com o proprietário do apartamento de cima que estava, literalmente, careca de saber do assunto. E como essas coisas levam um tempo, aproveitaram para ir comprando os móveis e eletrodomésticos mais básicos.
Foi quando se depararam na escolha da cor da pintura. Conversaram, pensaram, reavaliaram e não conseguiam chegar a um acordo. Ele era da opinião fechada, unitária e clara do branco, até porque o apartamento não era grande. Mas ela, por sua vez, queria poder distribuir as cores pelos cômodos, associando as funções aos estados de espírito apropriados, tendo lido muito sobre as cores e as emoções que elas despertam, sabendo que o ambiente pode ser totalmente modificado pelas cores.
Ele acabou cedendo, concordando em verem juntos alguns testes distribuídos por ela pelas paredes. Na verdade, ia ser bastante rápido: ela compraria as tintas, o pintor faria o teste, ele daria uma olhada, eles chegariam a uma conclusão e o pintor faria o seu trabalho rapidamente, até porque era um excelente profissional. A fórmula podia ser simples, mas na prática...
A primeira vez que ela foi à loja de tintas, ficou perdida, perplexa, extasiada. Não entendia as diferenças de uso das tintas látex, óleo, acrílica, os rolos e seus vários tipos, os pincéis dos mais variados tamanhos! Deu meia volta, e foi buscar o pintor. Ele explicou a aplicação dos diferentes tipos de tinta, calculou a quantidade de cada e até explicou os efeitos gerais das cores, com as mais claras ampliando os espaços e as mais escuras diminuindo. Mas também tinha a opção de fazer apenas uma parede de cor contrastante, o que podia ficar bem, bonito. Ela não quiz nem ouvir essa possibilidade. Já eram tantas as cores e a dificuldade de combinação pensando em um cômodo de cada cor!
Chegou ao apartamento exultante, o pintor aprovara as suas escolhas e apenas sugerira que ela clareasse um pouco mais o amarelo. Cada cor fora aplicada nas paredes corretas quando o noivo chegou e, horrorizado, constatou que ela não estava brincando quanto à sua decisão . Brigaram feio, o pintor saiu de fininho, ela ficou chorando sozinha, encontrando felicidade e conforto nas cores alegres e suaves que escolhera. Casamento desfeito, depois da pintura encontrou o amor justamente no pintor.

sábado, 22 de setembro de 2012

Textura

Tinha uma noção bem precisa do que queria. Algo forte, impactante. Mas, ao mesmo tempo, com um apelo conhecido. Sim, queria um estranhamento familiar, provocar uma reação quase orgânica, logo na entrada, na parede oposta à porta.

Primeiro, pensou em uma cor contrastante e vasculhou catálogos de tintas, ávida por encontrar aquela tonalidade exata que serviria ao seu propósito. Convencida de que precisava de algo mais visceral, encantou-se pela idéia de uma textura que exprimisse suas intenções.

E aí foi buscar nas suas emoções o que estava tentando exprimir. Fechou os olhos, respirou fundo e a imagem que lhe veio à mente foi a terra. O chão molhado cheirando à chuva fresca e o desenho do barro molhado. Terracota com aspecto rústico e envelhecido foi a sugestão. Feito o teste no canto da parede, ela percebeu a obviedade do tema, a interpretação do apego às raízes.

Queria algo mais audacioso, que manifestasse um movimento constante, uma mutação. E a imagem que surgiu foi a do mar e suas ondas incessantes. Uma tonalidade entre o verde e o azul, um trabalho mais dirigido para formar o desenho de altos e baixos e alí estava o seu cantinho do mar, opondo-se ao barro molhado no outro extremo da parede. Mas ficou tão frio, calmo, um estado de paz e harmonia que não pode ser permanente sem suscitar uma total imobilidade.

Sim! Queria criatividade, audaciosamente indo onde outros não tinham estado. Um foco brilhante e indagador, o calor das cores fortes. E o seu querido sol surgiu resplandecente, provocando e aquecendo, convidando e repelindo. No meio da parede em questão foi feita uma massa homogênea, de um amarelo radiante, com um movimento circular que a tudo parecia englobar. Colocou seus óculos escuros e foi fazer o jantar.

Enquanto a água fervia, observava o movimento do fio de azeite, tão sereno. Cansada das tentativas frustradas, já cogitava o branco para apaziguar o espírito da parede e o seu próprio. Voltou à sala e contemplou as três tentativas. Colocou uma música e lembrou-se do tempo do spagheti. Na cozinha, misturou o molho com cuidado, feliz por antever sua fome saciada por algo tão simples, prosaico, uma invenção que remetia à sua infância de avós italianos.

Serviu um cálice de vinho e sentou-se com o prato de macarrão ao sugo bem defronte da parede, foco de sua atual preocupação. Esvaziando sua mente de qualquer sugestão prévia, perguntou-se: o que quero agora? E a única resposta que lhe veio foi o vermelho do vinho, o vermelho do macarrão. A sede parecia secar-lhe a garganta diante da resposta imediata. Tomou o vinho de um gole e ficou a contemplar o prato à sua frente. O olhar ia do prato à parede, da parede ao prato.

Até hoje, o foco central da casa é aquela pequena parede vermelha com movimentos aleatórios manifestados naquela textura única, que parece saltar aos olhos, gulosamente convidando, instintivamente repelindo. Momento único de inspiração da dona da casa!

domingo, 16 de setembro de 2012

Móveis antigos

Gosto de reciclar móveis, repensar suas utilidades, extrapolar suas funções. No tempo, eles ganham novos ares, às vezes novas cores, invariavelmente novos estofados. E nesse hábito que está comigo há tempos, também vou recolhendo pedaços de histórias alheias, restos do passado, fantasmas aos montes. Na cadeira de balanço, senta-se uma jovem que lá se balança todas as manhãs. 

Apesar do pé da máquina de costura hoje ser uma mesinha, ele de vez em quando é vigorosamente acionado para dar conta do trabalho da atarefada costureira loira e risonha. No sofá de couro, senta-se lendo um homem grisalho de olhar triste, fumando o seu cachimbo em tempos que fumar dentro de casa não era o ato de transgressão que hoje tomou conta dos vigiadores da paz.
Quanto tempo até o gato fantasma que dorme sonolento em cima da poltrona perceber na cozinha, ao lado do guarda comida, o cachorro rabugento que também não tem nenhuma presença material?
Quando saio para o trabalho, fecho a porta sabendo que todos estarão lá, fazendo-se companhia, aguardando a minha volta, não pela comida, já que isso eles não fazem, mas pela companhia que traz notícias frescas, um ouvido atento e a atenção para que possam povoar a minha vida.
Aos amigos, informo sempre que não me sinto só vivendo sozinha, antes de sinto muito bem acompanhada pelos meus livros, minhas coisas, minhas memórias. Nesse momento, oculto de todos essa população secreta, que às vezes sorri quando esse tipo de conversa se dá na minha própria sala.
E temos esse trato: respeitar sempre a presença de estranhos e mesmo a minha própria intimidade. Fantasmas no banheiro, nem pensar! Mas de fato, quando olho ao redor, sinto a personalidade dos móveis encher o ar, soltando a sua fumaça de passado e elegância, trazendo um cheiro bom de lustra móveis.
A madeira de antigamente é diferente e se faz sempre presente, nos rangidos que já não sei se são os móveis ou os fantasmas, para os quais ofereço chá mesmo sabendo que não vão tomar.
Casa é uma palavra cheia de ar, que dá fôlego para um dia difícil, que aquece os dias frios, que aconchega à noite. É um exercício de autoria, onde nos permitimos fazer o que o coração (ou o bolso) manda.
Se antigamente a casa era só um lugar para morar e os móveis quase essenciais, hoje a ampla possibilidade de cores e combinações faz com que possamos dele nos apropriar.
Decisões iniciais tomadas, as pessoas têm a liberdade de sair fazendo, usando móveis planejados, copiando revistas, contratando profissionais que ajudam na decoração ou simplesmente apelando para o coração e ir combinando móveis e fantasmas.

sábado, 15 de setembro de 2012

Andaime

Confie em mim, disse o homem baixo, e esticou a mão. O outro, semi dependurado na madeira improvisada como andaime, automaticamente esticou a mão de volta.

Mas aí o primeiro parou no meio do caminho, como se pensando se confiar seria uma boa opção. Desequilibrado, olhava alternadamente o vazio abaixo, na altura do segundo andar da obra, analisando a situação.

A situação toda era precária, uma reforma que já durava mais do que o pretendido, relações de trabalho conflituosas, pedreiros que chegavam e partiam, um empreiteiro estressado e os donos da casa a beira de um ataque de nervos.

E na ponta do andaime... um pedreiro dependurado, dependendo da ajuda do mesmo empreiteiro que ele conhecia pouco mas no qual não confiava. Luta de classes? Lembranças de situações vividas recentemente, promessas tantas não cumpridas, segredos e reviravoltas no ambiente de trabalho.

Horários extensos sem pagamento de hora extra, falta de equipamento de proteção, uma sensação de não ter nenhuma fé no dia seguinte. Todas as madrugadas, na condução, pensando que talvez chegasse no lugar da obra e fosse dispensado, arbitrariamente, com sucessos e fracassos dependendo mais do humor do que da competência.

Não só de material e prazos é feita uma obra. Ela é feita de gente e essa gente vai e vem no seu anonimato. E ele ouvia a voz do outro ficando mais nervosa, mais distante a medida em que o andaime se afastava da construção. Se tivesse a instrução e a compreensão do panorama psicológico, diria que tinha problemas de confiança.

E na ânsia de salvar o pedreiro, parte de sua equipe reduzida e sempre sobrecarregada, o outro se debruça perigosamente. Por um momento ambos sabem que é o último instante antes da queda. O pedreiro agarra a mão estendida, o empreiteiro por pouco não vai junto mas se equilibra e conseguem ambos respirar aliviados ao caírem sentados no chão dentro da casa.

Momentos de silêncio antecedem o último momento desse relacionamento: o pedreiro agradece e pede demissão.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O homem que fazia chover

Sabia há vários meses que precisava tomar uma providência. Acompanhava angustiado as previsões do tempo, dizendo a si mesmo que ainda faltavam alguns meses para a estação das chuvas. Por via das dúvidas, e para não ficar muito nervoso, convencia-se de que não acreditava nessas coisas: previsões... E ia trabalhar fingindo não se preocupar.

Pegos de surpresa por uma chuva mais forte fora de época, passavam todos da casa por uma obrigatória faxina-enxuga-enxuga. Mas até que tinha seu lado bom, as goteiras generalizadas tinham provocado uma total redecoração da casa, agitando a imobilidade de vários anos. Agora, estofados amontoavam-se em um canto para abrir amplos espaços de circulação...

Mas era só decidir tomar uma atitude, marcar com o dito cujo telhadista e pronto: chovia. Teve até o dia que o magrelo chegou, subiu no telhado, começou a destelhar e, de repente, o maior estrondo! O céu azul transformou-se em chumbo em questões de segundos, grossas gotas caíram sem piedade, formando um temporal que durou várias horas e alagou muitas ruas do bairro.

Depois de várias tentativas frustradas, com lonas coloridas espalhadas sobre o telhado para funcionar como uma garantia extra, houve um momento solene de reunião familiar. Todos puderam votar entre contratar um desconhecido ou continuar tentando driblar a chuva. O tal do magro ganhou por unanimidade, fruto direto de reformas desastrosas feitas por desconhecidos sem-referência na mesma residência. Faço aqui um parênteses para explicar que “magro” não é uma opção politicamente incorreta que denote preconceito, aliás é assim mesmo que ele é conhecido, Magro do Telhado.

Tomada a decisão, marcaram vários dias e sempre a mesma coisa: chovia. Começaram então a usar expedientes escusos como marcar um dia, querendo dizer o anterior. Assim, se combinassem Quinta, queria dizer Quarta. Ele aparecia no dia anterior ao “combinado” e logo as nuvens cobriam o céu. Tentaram mudar o foco da preocupação, achando que o problema não era o dia combinado mas o caminho que o Magro percorria até a casa, dando tempo para o tempo mudar. Como se o tempo tomasse essa decisão de propósito, vigiando e punindo aquela família particular. Afinal, o homem tinha a mesma profissão há anos e nunca tivera este problema com outros clientes. É claro que às vezes acontecia, e certamente complicava na época das chuvas, mas essa verdadeira perseguição!

Com a previsão do tempo a favor, o Magro fingiu ir para um outro cliente bem perto da casa em questão e, lá chegando, certificou-se do céu com poucas nuvens brancas, nada ameaçadoras. Saiu ele pela porta dos fundos, correu até o endereço amaldiçoado e conseguiu trabalhar exatamente quarenta minutos antes do maior temporal desabar sobre a cidade. Agora, todos os envolvidos estavam totalmente convencidos de que só podia ser um pesadelo. Chegaram a pensar em subornar os boletins de previsão de tempo, procurar ajuda espiritual, fazer terapia, e outras saídas mais radicais que não valem a pena ser mencionadas. Frustrado, o dono da casa dispensou o Magro que, visivelmente abatido, virou motorista de táxi para tirar algum proveito dos dias chuvosos. Quanto ao problema das goteiras, elas foram resolvidas por outro profissional qualificado, que enfrentou uns dias de chuva, outros de sol.

domingo, 9 de setembro de 2012

Piscina

O terreno bem cabe uma piscina, pensou ela em uma noite quente de verão. Embora não fosse uma fã desse tipo de água parada, a ideia foi chegando devagar, povoando o desejo no abafamento da noite.

Sussurou insistente no verão seguinte, quando visitou uma amiga que acabara de construir a piscina. No churrasco para a inauguração da obra, saboreou a água fresca, ausente do excesso de barulho ou da briga que o casal anfitrião estava tendo no momento da festa.

Passou o ano tentando falar sobre o assunto, procurando todas as oportunidades possíveis de abordar o tema mas não encontrou eco no marido que manifestou a opinião de ser um estorvo sem fim ter uma piscina em casa.

Sem desistir, percorreu sites de empresas especializadas, viu a diferença entre os diversos acabamentos, escolheu a que melhor se adaptava ao seu terreno e pediu um orçamento. Aliás, não apenas um pois passara a se corresponder com essas empresas, pedindo orçamento e projeto como uma espécie de impulso incontrolável.

No verão seguinte, pensou em observar mais de perto a obra da amiga que construíra a piscina no ano anterior, perguntando sobre a sua experiência e procurando conselhos. Entretanto, a amiga não queria em absoluto falar sobre isso, tendo vendido a casa durante um processo de separação nem um pouco amistosa.

Lembrou de uma prima que estava iniciando a empreitada em outra cidade, não muito distante, e foi visitá-la. Descobriu que de fato o ideal é começar a obra no inverno, não só por causa da chuva de verão mas para não ter o transtorno de ver algo sendo feito bem durante o verão e ficar com um gostinho de “anda logo”, o que pode causar uma certa ansiedade e muitas discussões, como presenciou entre a prima e o marido desta.

Decidida, conversou com o marido a respeito, que continuava sendo contra a ideia, e estipularam que ela iria tocar todo o projeto e ele não se oporia. E assim foi, escolheu o melhor projeto, acompanhou de perto a instalação, cuidou dos detalhes do paisagismo, estudou a manutenção, encomendou até uma cascata com luz colorida e viu surgir do chão o seu sonho, junto com um divórcio pré anunciado que parece acompanhar a construção de piscinas em algumas cidades brasileiras, um fenômeno conhecido mas muito pouco estudado.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Reforma, decoração e outras formas de desconstrução

Casa, apartamento, loft, condomínio vertical ou um puxadinho no terreno dos pais?

Tudo é possível em tempos nos quais um sem número de revistas e sites dá dicas de decoração, design de interiores e um monte de outras palavras que não tinham nenhum significado há pouco tempo atrás.

E nessa ampla variedade de opções, as pessoas tentam montar o seu espaço, apelam para o faça você mesmo, chamam o pedreiro de confiança, contratam uma empresa especializada ou simplesmente constroem castelos no ar, armam planos mirabolantes que nunca saem do papel.

Como gosto do tema, brinco com palavras e observo sempre os arredores, nada como um exercício do absurdo, com pitadas de realidade.

Quem conhece a minha rua conhece o castelinho misterioso, envolto em fofocas e com múltiplas possibilidades de desconstrução. É um primeiro exercício.. ou obra!

Castelo

Todos no bairro conhecem o castelinho, um sonho que desafia os racionais e abre passagem para um tipo de pessoa que persegue o seu sonho a qualquer preço. Pode-se chamar de romântico, mas muitos outros partem logo para a alcunha de louco.

O fato é que o lar de uma pessoa sempre é o seu castelo e essa afirmação foi levada ao extremo por essa pessoa (o romântico ou o louco, podem escolher).

A esquina no alto, a obra começada, a vizinhança foi aos poucos acompanhando o surgimento de uma forma arredondada ao lado da casa, forma que foi ficando nítida aos poucos, já que a reforma era levada a passos vagarosos.

As crianças foram as primeiras a perceber que tinha algo diferente naquela casa. As janelas compridas e estreitas, a torre subindo, as pedras na fachada. Os elementos compondo a cada passo a forma do castelo de contos de fadas.

Aquele mesmo, só que em tamanho reduzido, compacto. E o dono entrava e saía, compondo o cenário, com direito a fonte de pedra no pequeno pátio, grades de ferro trabalhadas garimpadas em demolições.

E o tempo passando, a torre se delineando no sol de verão, misteriosa na bruma da manhã, melancólica nos dias chuvosos. Progressos tão vagarosos que a surpresa inicial foi se apagando, dando lugar a uma constatação simples de existência.

“Passe o castelinho e entre à direita”, uma simples referência. “Você percebeu que é como um castelo na cidade”, dos novatos do bairro. “Como não percebi que a torre está quase terminada?”, dos que descrentes do final da obra que tinham parado de olhar. Mas ele tinha chegado lá. A torre estava pronta e estava na hora de subir e dar a primeira olhada lá de cima. Esperou os pedreiros irem embora, não queria plateia. Era o seu momento de glória.

Subiu as escadas saboreando cada construção da torre, abre a porta e encontra a degrau, impressionado como a pedra tinha abafado todo o ruído externo e ele não ouvia mais os carros passando na rua.

Parou no final da escada, abriu a porta do pequeno cômodo, segurou a respiração e andou em direção à janela. Lá de cima, viu a princesa prisioneira, e um duelo prestes a começar no pátio do castelo.